Os filmes do ano

Joaquin Phoenix em Joker (2019)

A julgar pelos trailers que têm vindo a público, este ano espera vários filmes a entrar directamente para o pódio dos campeões de bilheteira.

 

ROCKETMAN
6 Maio
A biopic de Elton John estreia já no próximo mês. Com assinatura de Dexter Fletcher e Taron Egerton no papel do Rocketman, esta é mais uma biografia em filme, a surgir depois do sucesso de Bohemian Rhapsody.

 

THE DEAD DON’T DIE
14 Junho
Jim Jarmusch já é um nome com o seu público fidelizado, mas o seu novo filme está a gerar buzz por outros motivos. É que, além de ser um filme de zombies, The Dead Don’t Die tem um elenco de luxo: Bill Murray, Adam Driver, Tilda Swinton, Steve Buscemi, Danny Glover, Iggy Pop, Tom Waits… Como diz o teaser, “the greatest zombie cast ever disassembled”.

 

THE LION KING
19 Julho
Cada trailer e cada imagem que são divulgados já deixam antever o sucesso deste remake do clássico da Disney. The Lion King tem imagens tão próximas do original de 1994 que apela às memórias de infância de todos nós, além de um realismo técnico surpreendente.

 

ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD
26 Julho
O nono filme de Quentin Tarantino está a chegar. No filme, não há uma gota de sangue. Brad Pitt e Leonardo DiCaprio são os protagonistas desta história, que promete transportar-nos para a época dourada de Hollywood.

 

VARIAÇÕES
22 Agosto
Até que enfim que alguém devolve à ribalta aquele que foi um dos maiores artistas portugueses. O filme é de João Maia e só temo a decisão de regravar as músicas de António Variações com a voz do actor que aqui lhe dá vida. Sérgio Praia tem a difícil tarefa de representar o carisma de Variações mas este trailer deixa as expectativas lá em cima.

 

JOKER
4 Outubro
O Joker do Jack Nicholson já lá vai desde que o do Heath Ledger apareceu. Agora, Joaquin Phoenix parece querer limpar a história toda, com uma interpretação que já promete ser memorável.

 

STAR WARS: THE RISE OF SKYWALKER
19 Dezembro
Mais um filme da saga Star Wars? The Rise of Skywalker é mais do que isso, é o regresso das personagens mais queridas dos fãs desta história e uma homenagem póstuma a Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia.

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“I want you to be my Vice”

Sam Rockwell equilibra uma perna de frango nas mãos quando, no seu rancho, diz a Christian Bale que o quer como seu número 2 na corrida à Casa Branca. São George W. Bush e Dick Cheney as personagens ali sentadas. O que assusta no novo filme de Adam McKay é que as interpretações dos actores são quase caricaturas. Quase, não porque lhes falte algo – eles são o mais trunfo de ViceQuase, porque as pessoas ali retratadas são assim na realidade.

Conhecemos os seus maneirismos, expressões, formas de andar. Conhecemos o seu físico e até isso está ali perfeitamente exposto (mais uma vez, aplausos para o camaleão Christian Bale, que foi ao ponto de treinar o pescoço para que ficasse mais grosso, como o da sua personagem). E, de repente, estamos perante os Estados Unidos da América – o dos corredores do poder, onde o futuro de uma nação é decidido ao sabor das ambições pessoais; e o das ruas, onde as pessoas se deixam levar pelas meias verdades, toldadas por uma cultura de preconceitos.

Hot damn.

Como se a história da passagem de Cheney pela política americana não fosse suficiente para alimentar este filme, McKay dá um bónus. A realização de Vice é a antítese de uma conversa sobre política – mesmo quando nos fala de política. Não é aborrecida, mas dinâmica. Não entorpece, surpreende. Leva-nos a atenção por planos de pormenor longe da cena em causa e põe nas bocas das personagens a vertente narrativa da história.

Não é um filme sublime, mas o cinema vive mais das histórias romanceadas do que da realidade. Vice cumpre o seu propósito. Nem que seja por ter, de certeza, irritado alguns agregados familiares espalhados por aquela América que continua a querer ser grande novamente.

30 antes dos 30: A Flor do Equinócio

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio passou na RTP2 no sábado. Sabendo que estava na lista, e vendo bom cinema na televisão nacional, fiquei a acompanhar este que é um dos filmes da lista e que pertence a um dos maiores mestres do cinema japonês.

Yasujiro Ozu atravessou eras e as suas obras relatam a evolução do cinema como arte. A Flor do Equinócio (Higanbana, no original) foi o primeiro filme que fez a cores e é especial também por esse motivo. Para as filmagens, Ozu escolheu a marca Agfa por achar que essa película representava as cores vermelhas melhor que as Fujifilm e Kodak. Se a princípio o título do filme não parece ter relação com o seu conteúdo, logo percebemos que a importância desta escolha está associada ao nome: a flor do equinócio é vermelha. O resultado é uma paleta de cores esbatida e subtil que não choca por ser a primeira vez que Ozu filma fora do registo preto e branco.

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30 antes dos 30: The Big Lebowski

The Big Lebowski (1998)

The Big Lebowski (1998)

Joel e Ethan Coen entregam histórias estranhas e cativantes. Fazem equilíbrios perfeitos entre enredos inusitados e humor subtil. The Big Lebowski é assim.

Três dos meus conselheiros tinham determinado que não podia passar dos 30 sem ver este filme. As expectativas eram elevadas mas nada do que encontrei aqui correspondia ao que esperava. Sem conhecer a história (suspeito que era a única pessoa), foi fácil imaginar uma personagem maior para Jeff Bridges do que a de um pacifista arraçado de bum. Valeram-lhe os White Russians, os man a fechar cada frase e aquele jeito descontraído com que encara a sucessão de infortúnios que lhe acontecem. (Quem é que se preocuparia com o tapete da entrada depois de ver a sua cabeça enfiada na sanita?) Valeu-lhe também o efeito da idade. É que este filme saiu em 1998, ainda eu não tinha completado uma década e o Jeff, um perfeito jovem de quase 50 anos, apresentava muito menos rugas do que hoje. Perdoem-me a fraca memória, mas o Jeff Bridges que eu conheço é o do True Grit, onde este cabelo pelos ombros à surfista (a fazer lembrar o Eddie Vedder) é substituído por madeixas rudes e brancas, presas debaixo de um chapéu empoeirado.

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“Crimson Peak”, o romance gótico de Guillermo del Toro

Crimson-peak-Movie-2015
Publicado na Look Mag

Tem interpretações de luxo e um guarda-roupa victoriano que deixou deslumbrados os Storytailors, Luís Sanchez e João Branco. O novo filme de Guillermo del Toro passeia-se entre o romance, o terror e o drama psicológico. “Crimson Peal – a Colina Vermelha” chega às salas de cinema a 22 de Outubro.

O enredo não é inédito mas a reinvenção de Guillermo del Toro dá-lhe contornos únicos. Em “Crimson Peak”, o típico triângulo amoroso é protagonizado pela filha de um poderoso industrial americano, a aspirante a escritora Edith Cushing (Mia Wasikowska) e os irmãos Thomas (Tom Hiddleston) e Lucille Sharpe (Jessica Chastain). Ele é um inventor a tentar explorar a única riqueza que lhe resta, as reservas de argila acumuladas sob a sua desterrada casa britânica (fria e assustadora, como convém a qualquer filme de terror); ela é a sua fiel sombra e guardadora de todos os segredos da família.

O filme tem inspiração victoriana e faz lembrar os clássicos de Hollywood entretanto cristalizados. Para Guillermo del Toro, marca o regresso dos romances góticos ao grande ecrã, de onde tinha desaparecido há 30 anos. E chega com tudo o que os espectadores podiam esperar do realizador: grande intensidade dramática, uma qualidade estética única e actores de qualidade reconhecida com desempenhos emocionantes. A coroar a imagem de “Crimson Peak” está o guarda-roupa criado por Kate Hawley, que deixou rendida a dupla de estilistas Storytailors, fãs de Guillermo del Toro desde “O Labirinto do Fauno”.

Para Luís Sanchez e João Branco, este é um filme «esteticamente avassalador e violentíssimo». E o guarda-roupa está à altura. Confessam-se arrebatados pelas criações que vestem as personagens de Mia Wasikowska e Jessica Chastain.

Em entrevista à Look Mag para comentar o filme, explicam que o guarda-roupa não retrata a época da acção (passada na alta sociedade nova-iorquina e na Inglaterra do início do século XX) mas constitui uma reinvenção desse período. «Não são apenas réplicas ou retratos dos vestidos de época, há trabalho criativo» e «liberdade interpretativa» para tratar cada figurino consoante os traços das personagens. Valorizam a herança histórica, que vêem como correcta no filme, mas no seu trabalho preferem pensar no futuro em vez de privilegiar o saudosismo.

A carga dramática do guarda-roupa é acentuada pelos materiais e cores usados por cada personagem. Os Storytailors explicam porque Edith Cushing usa sempre cores claras, como o vestido rosa pálido com que se apresenta numa das principais cenas da primeira parte do filme, por ser a «cor do amor puro», ou o amarelo, uma cor mais alegre. Ao mesmo tempo, Lucille Sharpe traja de pretos e vermelhos acetinados, símbolos da paixão. Para os criadores, estereótipos como estes «têm de ser muito bem trabalhados, senão tornam-se clichés». Quando são usados como em “Crimson Peak”, têm a «capacidade extraordinária de emocionar» os espectadores.

Os estilistas também se sentem emocionados por denotarem no trabalho de Kate Hawley e Guillermo del Toro uma paixão distintiva. Identificam-se também com aquele trabalho por terem criado, há pouco tempo, um vestido de noiva para uma cliente que iria casar num castelo antigo de França, algo semelhante à casa onde se passa o enredo.

Tecnicamente, os elogios dos criadores portugueses continuam. Desde os materiais escolhidos para os vestidos às técnicas utilizadas para a sua construção, como é feito numa das primeiras peças com que Lucille Sharpe se senta ao piano: o trabalho detalhado e a estrutura das costas do vestido e a transparência das mangas são destacados pelos Storytailors.

Os que esperam um filme de terror vão encontrar em vez disso um drama psicológico. Mas há alguns fantasmas e muito sangue. “Crimson Peak” vale pela beleza estética única e cativante, pelas personagens arrebatadoras, pelo desempenho extasiante dos actores e pela combinação narrativa entre o fantástico e a vida real. Mestria de Guillermo del Toro.