Dos meus ovários, sei eu

A North Texas couple with protest sign at the March for Our Lives rally in Denton, Texas.
Photo by Heather Mount on Unsplash

Discutiu-se num ajuntamento do partido CHEGA, este fim-de-semana, uma moção que, entre outras ideias, propunha que se removesse os ovários às mulheres que fizessem abortos.

A moção foi debatida e rejeitada.

Por princípio, uma democracia deve ter abertura para discutir todas as ideias. Está aí a sua liberdade. Está aí um dos seus pilares.

Essa liberdade acaba aqui.

Quando um partido surge na esfera política como um íman de radicalismos do quadrante político onde se posiciona;

Quando um partido tenta agregar extremismos para ganhar votos;

Quando um partido monopoliza a desinformação para alcançar ganhos políticos;

Quando um partido abre o seu espaço a ideologias que não têm lugar na nossa democracia:

esse partido é perigoso e deve ser travado.

A responsabilidade de quem está à frente do CHEGA terá, um dia, de ser plenamente assumida. Porque congregar os fundamentalistas que até agora não se reviam noutra força política ou cívica, tem um impacto muito real na vida de todos.

Por algum motivo, esses fundamentalismos não estavam representados no Parlamento.

Por algum motivo, este partido teve um crescimento mais rápido do que outras forças políticas que nasceram, em muitos anos.

O apetite mediático pelas barbaridades que habitam o universo do CHEGA também tem de assumir a sua responsabilidade, consciente de que está a ser instrumentalizado.

Quem construiu este partido, fê-lo com grande inteligência. A estratégia funciona. Um dia, terá de ser responsabilizado pelo monstro que criou.

A última Coca-cola no deserto

Paisagem do arquipélago das Berlengas

Berlenga, julho 2020

Em 2019, a lei determinou que só 550 pessoas podem estar nas Berlengas. Num dia de 30º, não foi difícil descobrir que esse é um limite incomportável.

Num frenesim, as operadoras que fazem a travessia Peniche-Berlengas-Peniche procuravam ocupar todos os lugares. Não interessava tanto quem mais facturava, desde que fossem vendidos todos os bilhetes disponíveis. O distanciamento não existia naqueles barcos, como se certas regras não se aplicassem no mar. Continuar a ler

Como a Pixar conta histórias

Carl from Pixar's movie Up, looking sad
Carl, Up (2009)

Ronnie del Carmen é um story person, director e designer na Pixar e, na altura em que o seu pai estava internado, o projecto que tinha em mãos era Carl, protagonista do filme Up.

Quando Carl se senta no sofá a folhear um pelo álbum de fotografias e a recordar a vida que partilhou com Ellie, não há diálogos. Aquele silêncio das conversas entre Ronnie e o pai foi vertido para dentro dessa cena. E, sem palavras, ali diz-se tudo sobre a perda, nos olhos tristes de Carl e na sua barba mal feita – tal e qual uma pessoa de verdade.

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RUN: nova série de Phoebe Waller-Bridge dá protagonismo merecido a Merritt Wever

Merritt Wever e Domhnall Gleeson protagonizam RUN

4/5 estrelas

RUN é a história de dois ex-namorados que reativam um plano de fuga antigo e reencontram num comboio com destino a Nova Iorque.

Nas entrelinhas desta sinopse simplista estão o protagonismo já merecido de Merritt Wever, a sua química instantânea com Domhnall Gleeson e as assinaturas criativas de Vicky Jones e Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”), prometendo comédia, suspense e feminismo. Continuar a ler

Todas as coisas maravilhosas

Amsterdam, 2014

“Número um: gelados.”

Uma criança começa a fazer uma lista de motivos para convencer a mãe a agarrar-se à vida. Coisas pelas quais vale a pena estar cá. “Número um: gelados.”

A lista acaba por acompanhar a vida daquela criança, passa pela sua adolescência, atravessa-lhe a vida adulta, a constituição da família, o desamor.

Julgo lembrar-me o suficiente da história criada por Duncan McMillan e representada em Portugal pelo Ivo Canelas. Como o “Blister in the Sun” a tocar bem alto numa acústica boa, esta peça foi um shot energético. Uma coisa maravilhosa.

Agora, não acho que vamos todos ficar bem. Há muitos que este vírus subtraiu  antes do tempo. Não é justo pensar que vamos todos ficar bem.

Mas devemo-lo a nós mesmos: ver as coisas maravilhosas.

“Gelados”, na voz pequena do miúdo que o Ivo Canelas escolheu no meio do público.

“O cabelo do Christopher Walken.”

“Marlon Brando.”

No meu isolamento, estas são todas as minhas coisas maravilhosas.

1. O cheiro a pão quente de que fala a Capicua.
2. Os ataques de riso a fazer pranchas durante os treinos online.
3. Reler todos os volumes de Harry Potter.
4. Ver musicais da Broadway no YouTube.
5. As listas automáticas do Spotify.
6. Fazer cursos online.