Napoli, ti voglio bene

Campi Flegrei. No sentido literal, uma terra em chamas. Ali perto, Nápoles (a cidade) é mais ponto de passagem para a costa e as ilhas do que destino final de tantos e tantos visitantes.

Foi o da viagem número dois. Uma cidade que é berço da pizza e pouco mais. Uma cidade que recebe e mastiga os turistas porque, afinal, também o faz com os locais. A eles, endurece-lhes a pele. Se lhes descobrem umas ruínas romanas nas bases das casas, não aceitam desertar.

A nós, quase nos repele – irremediavelmente, se decidirmos acordar noutro poiso na manhã seguinte. A Nápoles da pizza original (a da Sorbillo), dos cafés expresso tirados a ferver, dos Maradonas homenageados em cada esquina e dos presépios pintados à mão em centenas e centenas de peças.

A Nápoles dos pizzaiolos, das obras que parecem durar há anos, dos napolitanos franzinos mas enamorados.

A Nápoles da Spritz e dos homens que cantam a todo o momento, como se a vida napolitana custasse menos a viver por ser cantada.

A Nápoles dos altares, dos metros impossíveis de tomar e dos pedintes que se estendem pelas ruas, como há décadas já não se vê por cá.

A Nápoles do Vesúvio magistral, em constante pano de fundo. A Nápoles dos 414 degraus, de Sant’Elmo ao Bairro Espanhol. Essa Nápoles dos corajosos que correram, eles mesmos, com os nazis.

A Nápoles do manjericão plantado às portas de casa. A Nápoles dos limoncellos tragados em fins de tarde, em fins de praças cheias de gentes que não compreendem Nápoles.

A Nápoles dos vendedores de parmigiano, que encantam entre um tesoro e outro amore.

A Nápoles das saudades de quem tudo quer levar para partilhar em casa e a das saudades que deixa.

Napoli, you motherfucner*, és um osso duro de roer. Ma ti voglio bene.

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“Todas as receitas existentes de risotto”

Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice

Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 – onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá. Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era “You Oughta Know”, da Alanis.

Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.

Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois — acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de “How I Met Your Mother”. Mais que no começo de “Up”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos — não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme — e em tantos vídeos, músicas e crônicas. Não falta nada.

Gregorio Duvivier sobre Clarice Falcão

La La Land: A vida não é como nos filmes

“La La Land” é o filme-sensação da temporada e o grande favorito aos Óscares.

Emma Stone e Ryan Gosling dão vida ao par romântico que protagoniza a história. O par romântico – aqui está o primeiro sinal de que “La La Land” não recupera só a tradição dos grandes musicais de Hollywood, como tem sido tão comentado. Mais do que isso, o que aqui se faz é recuperar a tradição dos grandes filmes de Hollywood.

Que não se pense só em “West Side Story” ou “Singing in the Rain”. É verdade que Ryan Gosling também se pendura de um candeeiro. (Mas, ó Gene Kelly, ele não se ri como tu.) É verdade que há uma canção, cujos acordes se vão repetindo ao longo da história, que as personagens identificam de imediato e o que espectador reconhece como sinal de um momento marcante. Da mesma forma que Rick vai pedindo a Sam que repita as notas de “As Time Goes By“, em “Casablanca”. (E até aqui o Seb’s é decalcado do Rick’s).

“La La Land” não se limita a copiar. Homenageia. Não repete o que Hollywood já fez durante décadas, nos tempos do bom cinema e das grandes estrelas; de quando o preto e branco desapareceu para deixar ver os vermelhos vivos dos batons das actrizes. Em vez de repetir, resgata do esquecimento da produção cinematográfica em série, de hoje, a capacidade de produzir uma história clássica, num formato clássico.

Não falta nada. Além da música e da dança, está lá a grande história de amor, de duas personagens que o acaso insiste em juntar. Está lá a admiração por aquela época de ouro do cinema, vivida nos bastidores onde são feitos os filmes, tal como em “Singing in the Rain”. Está o carisma dos protagonistas, como que a relembrar os nomes que ainda hoje celebramos, Hepburn (Audrey e Katharine), Davis, Hayworth, Gardner, Bergman. Bogart, Astaire, Kelly, Grant, até Sinatra. Está um rol de momentos de sapateado. Estão os cenários que desaparecem para focar uma só personagem. Está até o uso de uma palavra ridícula mas característica (Fred Astaire em “Funny Face”, com o clássico s’wonderful).

Há aqui tanta nostalgia, que imagino Woody Allen consumido pela sua incompreensão habitual, de quem anda, há anos, a tentar fazer filmes como os de antigamente.

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Mas (e porque nestes filmes há sempre um mas) “La La Land” acaba por falhar. Enche-nos de expectativas no mais ingénuo desejo de que tudo corra bem com aquela bonita história. Achamos que tudo acabará bem, porque foi com estes clássicos que aprendemos que, nos filmes, tudo é perfeito. Mas “La La Land” acaba a tornar-se aquilo de que tentou fugir: um filme moderno. E, como qualquer filme dos nossos dias, não resiste a deixar para trás a sua versão cor-de-rosa e a dar-nos um verdadeiro banho de realidade.

É que, afinal, a vida não é como nos filmes. Não acabamos a dançar com vestidos brilhantes numa coreografia olímpica. Não acabamos num freeze frame de um beijo rápido (que Hollywood não deixava que os beijos se prolongassem além dos três segundos, naquela altura). Até porque – francamente – quem é que sabe sapateado, hoje em dia?

Os dois sonetos de amor da hora triste

Sonetos recuperados para a homenagem a Mário Soares, neste dia 10 de janeiro de 2017. Declamados por Maria Barroso, em gravação antiga, e ouvidos nos Claustros do Mosteiro dos Jerónimos.

(Um amor assim.)

I

Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro
Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro.

Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.

(Eu, Marco Polo)

Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-los-á em pensamento. Abarca

Nele o mar inteiro, o porto, a ria…
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus,

II

Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa… Não atino
Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

Álvaro Feijó

Before Sunrise

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Before Sunrise (1995) | Richard Linklater

Jesse: Alright, I have an admittedly insane idea, but if I don’t ask you this it’s just, uh, you know, it’s gonna haunt me the rest of my life.

Celine: What?

Jesse: Um… I want to keep talking to you, y’know. I have no idea what your situation is, but, uh, but I feel like we have some kind of, uh, connection. Right?

Celine: Yeah, me too.

Jesse: Yeah, right, well, great. So listen, so here’s the deal. This is what we should do. You should get off the train with me here in Vienna, and come check out the capital.

Celine: What?

Jesse: Come on. It’ll be fun. Come on.

Celine: What would we do?

Jesse: Umm, I don’t know. All I know is I have to catch an Austrian Airlines flight tomorrow morning at 9:30 and I don’t really have enough money for a hotel, so I was just going to walk around, and it would be a lot more fun if you came with me. And if I turn out to be some kind of psycho, you know, you just get on the next train. Alright, alright. Think of it like this: jump ahead, ten, twenty years, okay, and you’re married. Only your marriage doesn’t have that same energy that it used to have, y’know. You start to blame your husband. You start to think about all those guys you’ve met in your life and what might have happened if you’d picked up with one of them, right? Well, I’m one of those guys. That’s me y’know, so think of this as time travel, from then, to now, to find out what you’re missing out on. See, what this really could be is a gigantic favor to both you and your future husband to find out that you’re not missing out on anything. I’m just as big a loser as he is, totally unmotivated, totally boring, and, uh, you made the right choice, and you’re really happy.

Celine: Let me get my bag.