Panteão nacional, por Matilde Campilho

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© Filipa Moreno

Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de outro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
ajeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
de um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
na pracinha junto à igreja.
Ou é úlcera ou é amor.»

Matilde Campilho, jóquei

Agora governas tu, agora governo eu

© Partido Socialista

© Partido Socialista

Dei por mim a ler uma entrevista de António Costa. E a gostar. Dizia o líder socialista que as políticas de educação, de formação, de investimento em inovação devem estar entre as prioridades de Portugal no futuro. Muito bem, pensei para comigo, lembrando-me do sucesso numérico das Novas Oportunidades e recuperando de imediato os resultados qualitativos do programa-bandeira de José Sócrates.

Depois, li António Costa a evocar o milagre do investimento que permitirá abrir os cordões à bolsa, ou as portas blindadas dos cofres do Estado. Só assim, claro está, poderemos ter um País que baixa impostos e contribuições sociais, que aposta em políticas de educação que promovam a qualidade e melhorem os nossos níveis de qualificação e formação.

Li um António Costa sebastiânico a afastar o nevoeiro que ensombrou as políticas sociais de Passos Coelho. E perguntei-me se será possível conciliar as duas visões. Num canto, o Estado Social pai, protetor e (e)terno financiador de tudo e mais alguma coisa. Um Estado que cria até emprego se assim for preciso. Um Estado que permite a uns trabalhadores, os da Função Pública, ter horários de trabalho inferiores aos praticados no sector privado. (Li Costa explicar, por outras palavras, que é preciso devolver a motivação aos trabalhadores do Estado).

No outro canto, um Estado que se subtrai à intervenção económica e deixa as empresas livres, leves e soltas, a gerirem por si os seus lucros e perdas. Um Estado que privilegia a iniciativa individual e a criação das oportunidades próprias. Um Estado quase acéfalo em matérias sociais quando confrontado com a obstinada missão de cumprir metas.

Perguntei-me se será possível atingir um equilíbrio ou se, como na moda, estamos condenados a viver a política por ciclos? Agora governas tu, gastas como entenderes. Agora governo eu, para pôr ordem na casa. Será esta uma disputa eterna, com muitos rounds e sem nenhum vencedor?

Li ainda António Costa a esquivar-se completamente à festa que andou a fazer ao Syriza. Pergunta o jornalista se Costa alinha na renegociação da dívida. Responde o artista: «Não tenho visto grande sucesso nos governos que assumiram essa meta como objetivo. Aquilo que digo é que não gostaria de colocar Portugal na posição em que outros, de uma forma voluntarista têm colocado os países que estão a governar.»

Li José Sócrates, perdão, António Costa a indignar-se com a divulgação do SMS enviado ao editor de política do Expresso criticando o que este escreveu sobre o líder socialista. Merece citação: «E que se procure transformar o mártir do SMS em herói da liberdade só me dá vontade de rir. Não acredito que haja algum jornalista que se deixe intimidar ou condicionar por qualquer tipo de SMS.»

As mulheres são.

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Tenho aqui um rascunho que data de 8 de Março. Fala sobre o discurso de Patricia Arquette nos Óscares e sobre desigualdade de géneros que se reflecte nos salários.

Fala em imposição de quotas para mulheres nas administrações de empresas e em meritocracia. Fala sobre acções que marcaram o Dia da Mulher deste ano. Fala da campanha “Quem te ama não te agride” e fala da música “Cansada“, onde a APAV juntou grandes vozes femininas. Fala inevitavelmente de violência mas fala sobretudo de igualdade.

Ora, este rascunho ficou-se por isso porque foi cozinhado em lume forte (a arder na pele) e estas coisas precisam de marinar antes de ver a luz do dia.
Acabei por não publicar.

Mas hoje, a ler a entrevista da Alexandra Lucas Coelho ao Paulo Moura, para o ípsilon, lembrei-me do post ainda por terminar e percebi que as palavras da escritora coincidiam, em parte pelo menos, com o motivo que me levou pensá-lo.

Diz a Alexandra, sobre a protagonista do seu O Meu Amante de Domingo:

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Uso as palavras – e a leitura – da Alexandra, já que as minhas não fariam justiça ao que é preciso dizer sobre o que para aí anda: «…a sobranceria, o disparate, a arrogância…».

Porque a sobranceria, o disparate e a arrogância estão à frente dos nossos narizes tantas vezes que passamos a ignorá-los. Como fazemos com aqueles óculos grossos, de massa e cores garridas, que aprendemos a não ver, pelo canto do olho, ao fim de alguns dias.

30 antes dos 30: Aniki Bóbó

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Aniki Bóbó (1942)

Apesar de não estar na lista, achei que não podia passar pelo melhor do cinema sem ver Manoel de Oliveira. No dia em morreu, aos 106 anos, conheci a sua primeira longa-metragem de ficção.

Aniki Bóbó (1942) é um retrato ternurento da infância passada nas margens do Douro, durante os anos da Segunda Guerra. Das histórias e aventuras de miúdos que escapavam à escola para ir ver os comboios a passar. De crianças que diziam coisas de adultos com pronúncia cerrada e vozes de pequeno. Uma estória quase clássica de boy meets girl.

“Queres brincar comigo?”

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