30 antes dos 30: Raging Bull

Martin Scorsese com Robert De Niro no cenário de Raging Bull, 1979

Num camarim, um homem declama um discurso sobre a vida. Refere clássicos da literatura, no seu inglês americano de sotaque italiano. Tem peso a mais, cabelo frisado e o nariz inchado. Traja de gala, mas parece desconfortável dentro do fato preto. Martin Scorsese apresenta-nos assim Robert De Niro no papel de Jake LaMotta, mas é difícil reconhecê-lo. A fama e a fortuna já lhe passaram há muito tempo. Raging Bull (1980) é a história da ascensão e queda de LaMotta e de como Scorsese andou a encontrar-se com o lado perigoso da vida.

Depois do encontro inicial, a história recua ao ponto de partida: LaMotta é um campeão de boxe famoso, agenciado pelo seu irmão Joey (Joe Pesci). Fora do ringue, LaMotta perde o controlo com a sua mulher depois de um combate perdido. Paul Schrader e Mardik Martin, a quem se deve o guião do filme, tiveram a preocupação de traçar de imediato o perfil do protagonista – um homem pouco racional, com uma raiva que funciona como força de combate dentro do ringue (e que o torna um campeão) e um motor de destruição fora de campo. Essa raiva é tradução das frustrações de LaMotta, sobretudo na sua relação com as mulheres. Repetirá o mesmo padrão violento com a sua segunda mulher, Vicky (Cathy Moriarty).

Essa fúria destrutiva é o elemento mais interessante das cenas de combate. Scorsese entra para dentro do ringue com os pugilistas. Aproxima a câmara da acção, mas abranda-a para que possamos ver tudo o que acontece. Como se estivéssemos dentro do corpo de LaMotta – apenas o corpo, porque a cabeça está completamente limpa de qualquer intenção racional.

Nos combates com Sugar Ray Robinson, essa fúria é particularmente notória. E no último, de 1951, Scorsese é particularmente gráfico. Sugar Ray desfere golpe atrás de golpe na cara de LaMotta, o sangue jorra, salpica-lhe até as pernas. O realizador foca as cordas que delimitam o ringue. Há uma grande mancha de sangue sobre o branco das cordas. E ela pinga, laconicamente. A energia do pugilista que vimos como quase invencível extingue-se, o campeão parece desistir. Ainda assim, no final do combate, LaMotta tenta recuperar a sua honra. Chama o adversário, com o rosto todo ensanguentado, e diz-lhe que nunca foi capaz de o levar ao tapete. A frase é pronunciada como se se tratasse de uma brincadeira de crianças, um jogo infantil no recreio da escola. É mais uma forma como os guionistas retratam a personagem, através de um traço importante da sua personalidade. A verdade é que LaMotta nunca recuou nem dentro do ringue nem fora dele. Na sua vida, nunca se corrigiu, nunca manifestou qualquer ponta de humildade.

Por esta altura da história, já o pugilista tinha pedido ao irmão e agente para manter Vicky debaixo de olho. Está convencido de que a mulher lhe é infiel e essa suspeita é uma das fontes da violência na família. Joe Pesci mostra-se relutante. Sabe que o pedido é disparatado. Mas vamos vê-lo mais tarde a ordenar a Vicky que vá para casa, depois de a encontrar num clube, na companhia de figuras importantes da máfia local, com quem a mulher de LaMotta tem confiança. Joey larga a bater nos presentes, numa intensa cena de bar fight, que inclui Pesci a entalar um dos membros da máfia na porta do carro. Várias vezes e com particular força.

O cúmulo da paranóia de Jake acontece quando se convence de que a mulher é mesmo infiel e ela ironiza que até já o foi com o cunhado. Jake agride o irmão e a luta quebra a relação dos dois. Já na fase decadente da sua vida, sai de um clube onde tinha actuado e vê o irmão na rua. Aborda-o, para grande desconforto de Joey (e Pesci é óptimo a retratar esse incómodo). Não lhe pede perdão, não ensaia qualquer tipo de desculpa. Diz-lhe, bêbado, que já passou muito tempo e que é altura de esquecerem o que aconteceu.

Quando LaMotta é preso por beijar uma menor de idade num desses clubes nocturnos, tem um momento de exaltação quando os guardas o levam para a cela. Atirando murros contra a parede de betão, pergunta por que aconteceu aquilo consigo.

LaMotta é este ser que passa pela vida a questionar a origem das desgraças que lhe acontecem sem perceber que provoca cada uma delas. Robert De Niro é exímio a mostrar essa ingenuidade e transmite uma intensidade tal que só o nariz falso muito inchado que lhe vai aparecendo ao longo do filme é que desmancha o figurino. Raging Bull teria passado bem sem esta prótese.

Entre actores e adereços, vale a pena falar de dois elementos de Raging Bull. Sabemos que estamos perante um filme de Scorsese porque a equipa (que já tinha trabalhado com o realizador em Taxi Driver) repete-se (protagonista, equipa de som, director de fotografia…). Mas também porque encontramos novamente a cidade de New York como uma personagem. Como em Taxi Driver, a cidade era uma entidade abstracta mas muito presente que, suja e cheia de transgressores (na visão de Travis Bickle), precisava da acção de um justo vigilante. Em Raging Bull, Scorsese faz uma limpeza cosmética da cidade, para a retratar entre os anos 1940 e 1950.

Das marcas de Scorsese falta ainda falar desse sotaque italiano forte, que remete para as raízes do realizador. Outra força deste filme é o trabalho de som. Passam quase despercebidos, mas alguns dos sons usados durante os combates são de animais. São sons muito breves, trabalhados e introduzidos na dinâmica da história para acentuar o subtexto, que nos diz que aquela força de combate é selvagem. Da mesma forma, até o silêncio é usado como um recurso de edição de som. No último debate com Sugar Ray, o som extingue-se. Em vez de a edição exagerar a emoção com sons como os de animais, apaga-se esse estímulo para que os braços de Sugar Ray sobre a cara de LaMotta, descrevendo arcos pelo ar, tenham absoluta atenção. O som só regressa no round final.

 

Um encontro com o lado perigoso da vida

Quando Robert De Niro sobe ao palco, naquele ano de 1981, para receber o Oscar por Melhor Actor com Raging Bull, um dos seus agradecimentos é para Jake LaMotta. E as câmaras focam o antigo pugilista, que aparece ali sorridente, divertido, no seu fato e laço, trajado a rigor.

Aquele campeão de boxe que vemos a citar clássicos como Shakespeare e Tennessee Williams, é o mesmo marido irracional que batia na mulher e que espancou o irmão. Como é que LaMotta vai parar ao showbiz, então? A história é curta nessa explicação, assim como não diz nada sobre o que terá feito com que o pugilista fosse agressivo, frustrado e ciumento. Algo na sua infância?

Por outro lado, Raging Bull poupa na narrativa para dar a cada cena todo o tempo de que precisa para respirar. As cenas de combates são bom exemplo desta escolha de edição. Vemos murros a serem formandos nas luvas dos pugilistas, o árbitro separa os confrontos, os oponentes descansam… Há tempo para olharmos com atenção para as expressões dos actores.

Martin Scorsese disse numa entrevista recente que aquela época foi, para si, de agitação, com uma atração para “o lado perigoso da existência”. Diz-se que De Niro terá visitado Scorsese depois de este sobreviver a uma overdose e que o terá convencido nesse momento a fazer Raging Bull, com base no livro autobiográfico de LaMotta.

Esse ritmo de quem regressa à vida depois de um encontro com o lado perigoso da existência está em Raging Bull. Os momentos são pensados com a calma de quem olha em profundidade para cada cena. E nem nos distraímos com as cores, porque Michael Chapman deixou tudo a preto e branco neste filme. Frank Warner foi o responsável de som que trouxe à vida as escolhas de Raging Bull.

Scorsese e De Niro aparecem ambos naquela noite de 1981, nos Oscars, com cabelos frondosos e rostos saudáveis. Scorsese tem a reputação lavada, depois do fiasco de New York, New York. De Niro já se livrou do peso extra que ganhou para representar LaMotta na sua fase de estrela de clubes nocturnos. Os sorrisos de ambos mostram que Scorsese fez um dos filmes da sua vida e que já deixou para trás aquele encontro imediato com a morte. Teria feito este mesmo filme noutra altura?

O tempo encarregou-se de consagrar Raging Bull como um dos melhores filmes de sempre. Sabemos que o público gosta de um filme que tenha desporto no centro da acção e em que um bom herói consiga ultrapassar provas físicas com sacrifício e sucesso. Mas Jake LaMotta não foi um herói, pelo que Raging Bull vale mais como filme do que como história verídica. Esse mesmo tempo trouxe cabelos brancos a Scorsese e De Niro. São barões de Hollywood, com uma história comum. E só podemos imaginar o laço que existe entre os dois desde o final dos anos 1970. Serão bons amigos, certamente. E são, de certeza, goodfellas.

Raging Bull. Martin Scorsese (1980)

Artigo publicado também em Sapo Mag

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.