Canon Urban Experience

© Filipa Moreno

Hospital Miguel Bombarda © Filipa Moreno

A convite da Canon, e com a Look Mag, fui conhecer as novas máquinas da marca numa apresentação bastante diferente. A ideia era embarcar na Canon Urban Experiencie. O local escolhido fez toda a diferença. Fomos fotografar as ruínas do Hospital Miguel Bombarda.

Em 2011, o antigo hospital psiquiátrico fechou portas. O encerramento das instalações vinha sendo preparado desde 2007 mas hoje parece ter sido tudo feito à pressa. Nas paredes, ainda estão penduradas placas onde os nomes dos pacientes escritos à mão pelos enfermeiros não foram apagados. Há listas com os nomes dos doentes de cada psicólogo nas portas. O Mangas fica com a doutora Coelho.

Nos jardins, a relva cresceu demasiado. E por ser Outono há folhas que se amontoam – dentro e fora de portas. Uma espécie de museu que relata a história das práticas psiquiátricas do hospital (funcionou durante 163 anos) mantém instrumentos antigos, como os ferros cirúrgicos usados para abrir crânios nos anos 30 e 40 que pertenceram a Egas Moniz. Há balneários, cozinhas, salas de reunião e espaços de convívio. Há celas individuais e visores redondos de vidro embutidos nas portas, porque o hospital nasceu como o espaço de acolhimento de alienados, como eram antes tratados os doentes mentais e as práticas acompanhavam o conhecimento da altura sobre as perturbações da mente.  Há um sem número de placas metálicas esquecidas nas paredes, a indicar que aquele presidente visitou o hospital e que as instalações foram construídas graças àqueles médicos.

O espaço está abandonado. Em ruínas preenchidas com intensidade e, neste dia, muita luz. A Canon EOS M10 que experimentei foi ideal para captar alguns pormenores. É leve, prática e muito precisa. É rápida diversificada e permite a partilha imediata de imagens através de Wi-Fi e do sistema NFC. (E tem um ecrã rotativo e um modo especial para as selfies, que também testei.) É perfeita para os que gostam de passear na cidade.

Ficam algumas imagens.

30 antes dos 30: The Big Lebowski

The Big Lebowski (1998)

The Big Lebowski (1998)

Joel e Ethan Coen entregam histórias estranhas e cativantes. Fazem equilíbrios perfeitos entre enredos inusitados e humor subtil. The Big Lebowski é assim.

Três dos meus conselheiros tinham determinado que não podia passar dos 30 sem ver este filme. As expectativas eram elevadas mas nada do que encontrei aqui correspondia ao que esperava. Sem conhecer a história (suspeito que era a única pessoa), foi fácil imaginar uma personagem maior para Jeff Bridges do que a de um pacifista arraçado de bum. Valeram-lhe os White Russians, os man a fechar cada frase e aquele jeito descontraído com que encara a sucessão de infortúnios que lhe acontecem. (Quem é que se preocuparia com o tapete da entrada depois de ver a sua cabeça enfiada na sanita?) Valeu-lhe também o efeito da idade. É que este filme saiu em 1998, ainda eu não tinha completado uma década e o Jeff, um perfeito jovem de quase 50 anos, apresentava muito menos rugas do que hoje. Perdoem-me a fraca memória, mas o Jeff Bridges que eu conheço é o do True Grit, onde este cabelo pelos ombros à surfista (a fazer lembrar o Eddie Vedder) é substituído por madeixas rudes e brancas, presas debaixo de um chapéu empoeirado.

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All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Chovia e eu escolhia o meu Beatle preferido. Lembro-me sempre de trautear os primeiros acordes de “Here Comes the Sun” quando o tempo pede sofá e manta.

Sei que é contra-senso mas, também, todos preferem o Lennon ou o McCartney. Ou o Ringo porque tem o nome mais dado à fama que alguém alguma vez conseguiu inventar e nem aquele nariz lhe roubou seguidores. Se calhar é o preferido de alguém por causa do nariz e do ar tonto que lhe dá.

Chovia e o George Harrison havia composto a melhor música de amor dos últimos 50 anos. A opinião do Frank Sinatra é de confiar. É sempre bom confiar naqueles que se fazem acompanhar de um copo de Jack Daniel’s. Qualquer bebida torna as pessoas mais francas mas a preferência insistente por uma, em particular, é sinal de lealdade. Entre a sinceridade e a lealdade é que se está bem.

Foi o “quiet Beatle”. Desviou-se das atenções em que se banhavam os dois vocalistas. Concentrou-se na sua arte. Desenhou algumas das mais belas histórias para guitarras. Histórias, porque não se limitava a escrever uma série de acordes. Antes, preocupava-se com a sucessão entre eles, para dar sentido ao conjunto que cada linha fazia soar na guitarra. My guitar gently weeps… Ao fim de uns tempos, conseguiu que os Beatles gravassem as suas composições. Chegou a dar voz a versos da banda e é a sua que se ouve em “Do You Want to Know a Secret”.

Descobriu uma religião diferente e descobriu-se a si mesmo. Entre o hinduísmo e o psicadelismo, lá estava George Harrison. Quando os Beatles se afastaram, continuou a experimentar os sons que tinha dentro de si. Até que, algures nos anos 70, fez All Things Must Pass. A gravação do álbum (triplo) foi a sua estreia a solo definitiva.

Aposto que chovia. Sim, chovia como hoje e o George dava este título tão maravilhoso quanto premonitório ao disco. Claro que é um cliché mas é um daqueles que sempre repetimos para nós próprios, baixinho, para se fazer ouvir cá dentro. Também isto acabará por passar.

Fiquei a ouvir enquanto pensava que, realmente, tudo passa. Passa a turbulência que se estende por um ano inteiro. Passam as coisas boas e até um dia passam as memórias que delas ficam, quando já estamos demasiado distantes de tudo para nos lembrarmos de que dia é.

Hoje ainda é 25. E já é um ano depois de tudo se ter lançado numa daquelas espirais que os economistas sabem ler nos números. Eu, que não sou economista, nunca poderia ter previsto esta.

Mas o George diz que passa. E que o sol chega sempre depois de invernos que parecem durar anos a fio. E, afinal, ele é o meu Beatle preferido.

“Crimson Peak”, o romance gótico de Guillermo del Toro

Crimson-peak-Movie-2015
Publicado na Look Mag

Tem interpretações de luxo e um guarda-roupa victoriano que deixou deslumbrados os Storytailors, Luís Sanchez e João Branco. O novo filme de Guillermo del Toro passeia-se entre o romance, o terror e o drama psicológico. “Crimson Peal – a Colina Vermelha” chega às salas de cinema a 22 de Outubro.

O enredo não é inédito mas a reinvenção de Guillermo del Toro dá-lhe contornos únicos. Em “Crimson Peak”, o típico triângulo amoroso é protagonizado pela filha de um poderoso industrial americano, a aspirante a escritora Edith Cushing (Mia Wasikowska) e os irmãos Thomas (Tom Hiddleston) e Lucille Sharpe (Jessica Chastain). Ele é um inventor a tentar explorar a única riqueza que lhe resta, as reservas de argila acumuladas sob a sua desterrada casa britânica (fria e assustadora, como convém a qualquer filme de terror); ela é a sua fiel sombra e guardadora de todos os segredos da família.

O filme tem inspiração victoriana e faz lembrar os clássicos de Hollywood entretanto cristalizados. Para Guillermo del Toro, marca o regresso dos romances góticos ao grande ecrã, de onde tinha desaparecido há 30 anos. E chega com tudo o que os espectadores podiam esperar do realizador: grande intensidade dramática, uma qualidade estética única e actores de qualidade reconhecida com desempenhos emocionantes. A coroar a imagem de “Crimson Peak” está o guarda-roupa criado por Kate Hawley, que deixou rendida a dupla de estilistas Storytailors, fãs de Guillermo del Toro desde “O Labirinto do Fauno”.

Para Luís Sanchez e João Branco, este é um filme «esteticamente avassalador e violentíssimo». E o guarda-roupa está à altura. Confessam-se arrebatados pelas criações que vestem as personagens de Mia Wasikowska e Jessica Chastain.

Em entrevista à Look Mag para comentar o filme, explicam que o guarda-roupa não retrata a época da acção (passada na alta sociedade nova-iorquina e na Inglaterra do início do século XX) mas constitui uma reinvenção desse período. «Não são apenas réplicas ou retratos dos vestidos de época, há trabalho criativo» e «liberdade interpretativa» para tratar cada figurino consoante os traços das personagens. Valorizam a herança histórica, que vêem como correcta no filme, mas no seu trabalho preferem pensar no futuro em vez de privilegiar o saudosismo.

A carga dramática do guarda-roupa é acentuada pelos materiais e cores usados por cada personagem. Os Storytailors explicam porque Edith Cushing usa sempre cores claras, como o vestido rosa pálido com que se apresenta numa das principais cenas da primeira parte do filme, por ser a «cor do amor puro», ou o amarelo, uma cor mais alegre. Ao mesmo tempo, Lucille Sharpe traja de pretos e vermelhos acetinados, símbolos da paixão. Para os criadores, estereótipos como estes «têm de ser muito bem trabalhados, senão tornam-se clichés». Quando são usados como em “Crimson Peak”, têm a «capacidade extraordinária de emocionar» os espectadores.

Os estilistas também se sentem emocionados por denotarem no trabalho de Kate Hawley e Guillermo del Toro uma paixão distintiva. Identificam-se também com aquele trabalho por terem criado, há pouco tempo, um vestido de noiva para uma cliente que iria casar num castelo antigo de França, algo semelhante à casa onde se passa o enredo.

Tecnicamente, os elogios dos criadores portugueses continuam. Desde os materiais escolhidos para os vestidos às técnicas utilizadas para a sua construção, como é feito numa das primeiras peças com que Lucille Sharpe se senta ao piano: o trabalho detalhado e a estrutura das costas do vestido e a transparência das mangas são destacados pelos Storytailors.

Os que esperam um filme de terror vão encontrar em vez disso um drama psicológico. Mas há alguns fantasmas e muito sangue. “Crimson Peak” vale pela beleza estética única e cativante, pelas personagens arrebatadoras, pelo desempenho extasiante dos actores e pela combinação narrativa entre o fantástico e a vida real. Mestria de Guillermo del Toro.

Foals em 360º

 

"Mountain At My Gates", Foals

“Mountain At My Gates”, Foals

Os Foals não são apenas uma das melhores bandas que a música alternativa recente tem, são também uma das mais criativas no que toca à sua imagem. A estética dos seus vídeos é reflexo disso mesmo, já que são autênticas curtas metragens dignas de ultrapassar as fronteiras do YouTube.

Agora, a banda de Yannis Philippakis bateu toda a gente na indústria da música ao apresentar o primeiro videoclip filmado com tecnologias de realidade virtual, diz a Pitchfork.

“Mountain At My Gates” é o segundo single de What Went Down, o quarto disco de estúdio, que o grupo britânico lançou em Agosto. É um tema extraordinário com as variações de intensidade a que os Foals já nos habituaram sem cansar. E adequa-se perfeitamente ao cenário do vídeo: as montanhas por detrás da presença da banda, imponentes até aos últimos segundos do vídeo. Até lá, a ideia é interagir com o vídeo, em 360º.

O vídeo foi gravado com uma GoPro Spherical e pode ser visto através da mobile app do YouTube ou no Chrome. Nabil é o responsável por este e outros videoclips dos Foals, ele que também já trabalhou com os Alt-J, Kanye West e Antony and The Johnsons.

A versão em 2D também é curiosa e pode ser vista aqui.

Talvez o jornalismo possa inspirar-se nesta tecnologia e deixar-se contagiar pelas ferramentas do futuro.