30 antes dos 30: Death in Venice

Death in Venice, de Luchino Visconti

Um adaptação distante do original, um filme sem história, uma narrativa superficial. Ainda que algumas críticas desconsiderem Death in Venice (1971), este que foi um dos últimos filmes de Luchino Visconti presta-se a leituras mais vastas. Como a beleza, que é tema central deste filme, e que Visconti situa no mundo dos sentidos.

Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde), protagonista de Death in Venice, é um compositor alemão que, ao encontrar-se numa crise pessoal e artística, procura refúgio na cidade idílica de Veneza. O pano de fundo é o final do século XIX, rodeiam-no famílias abastadas das elites europeias.

Veneza recebe estes turistas como a sua única fonte de rendimento. Para Aschenbach, a cidade é madrasta. É difícil lá chegar. O hóspede trata com enorme fastio os empregados do hotel, que se desdobram em gentilezas, rejeita com um aceno débil as mordomias que lhe tentam oferecer. O compositor procura o descanso, mas é assoberbado por um mau estar que lhe pinta a cara de gotas de suor.

Pausa neste pormenor da primeira parte do filme, porque Gustav vê passear pela praia e pelo hotel um rapaz adolescente, Tadzio (Björn Andresen), de uma família polaca que ali passa férias. O rapaz, que o subtexto nos diz claramente que está a tornar-se um homem e a abandonar as feições e brincadeiras de criança, apresenta feições rectas, a pele branca e o nariz perfeitamente delineado. Tem um cabelo loiro farto e o olhar – que vai dirigir a Gustav, mais do que palavras – é intenso.

Aschenbach fica obcecado com o rapaz. Procura-o entre os veraneantes, provoca o encontro, segue a família nos seus passeios. Uma das críticas à adaptação do livro de Thomas Mann para filme aponta que Visconti (além de ter transformado o escritor em compositor) não representa esta relação fielmente, ao perder-se na superficialidade dos olhares assertivos que Gustav lança ao rapaz.

Mann vai além do tema da homossexualidade e Visconti tentou englobar a dimensão filosófica da angústia de Gustav através de cenas de regresso ao passado, que levantam um pouco do véu sobre este protagonista que não nos suscita empatia alguma. Vemos discussões passadas com um suposto amigo de Gustav, que o confronta nas suas convicções. A mais notória dessas crenças é sobre a beleza, sendo que o compositor considera que o belo é um acto espiritual, ao contrário do amigo, para quem o belo pertence ao mundo dos sentidos. A obsessão de Gustav pelo jovem Tadzio vai abalar estas convicções, com o guião (escrito pelo próprio Visconti e por Nicola Badalucco) a sugerir que a beleza espontânea do rapaz arrebata o compositor de surpresa. Dizia ainda o protagonista, naquela recordação do passado, que o artista tem de ser um modelo de equilíbrio e força, exemplar nos seus actos, capaz de afastar ambiguidades. O amigo perturba-lhe esta ideia ao afirmar que a música é a mais ambígua das artes. Ficamos ainda a saber que o compositor teve uma filha, que morreu, e desconhecemos o paradeiro da sua mulher. Estes episódios parecem ter um efeito presente em Gustav e o seu mau estar constante poderia ser uma consequência disso mesmo.

Só que o passado não explica tudo e o compositor vai mergulhando num estado febril que o faz suspeitar de que algo se passa em Veneza. Os locais são evasivos perante as suas perguntas e refugiam-se na explicação climatérica de que o vento quente de África instala, habitualmente, aquele tempo quente na cidade. O filme ganha agora um ponto de interesse, porque há um segredo por desvendar. Mais uma vez, aquela cidade madrasta evita que Gustav apanhe rapidamente o comboio de regresso a casa, ao temer uma epidemia. A notícia de que terá de ali ficar mais três dias é recebida com um misto de irritação e agrado. Afinal, é mais uma oportunidade de observar o rapaz que lhe desperta desassossego.

Num desses momentos em que segue Tadzio e a sua família, Gustav vê-se no centro da cidade, que está a ser desinfectada. Descobrimos que um surto de cólera está a ser encoberto pelas autoridades e pelos locais. O compositor, novamente febril, desfalece nas ruas de Veneza, cinzentas, escuras, doentes. A fotografia do filme é elogiada por esta caracterização da cidade.

Vemos que Gustav retomou os sentidos no seu hotel, no dia seguinte. E será esse o dia em que o título da obra se consuma, quando Dirk Bogarde repete a cena em que cede à doença, desta vez sentado numa cadeira, na praia, enquanto observa Tadzio em frente ao mar. Gustav morre efectivamente naquele momento, ao som dramático da Quinta Sinfonia de Gustav Mahler, em que a personagem de Mann se baseia.

As composições de Mahler quebram a monotonia do filme, dando-lhe dramatismo e emoção e resgatando-nos às divagações clássicas sobre o belo. No outro extremo, pensamos em Call Me By Your Name (2017) e nas semelhanças entre as duas histórias, embora uma concretize de forma romântica aquilo que a outra apenas idealiza.

Death in Venice fica pela idealização porque também não podia ser de outra forma, tratando de um fascínio de um homem adulto por um rapaz. A aposta é arriscada mas a ideia pode ser mesmo prender a atenção e convidar à reflexão. É como se o filme nos quisesse surpreender ao mostrar como o modernismo irrompeu pela antiguidade adentro, a questionar tudo em que se acreditava.

As críticas a Death in Venice são várias e é compreensível que este filme esteja longe de arrebatar os espectadores. Mas percebe-se que o The Guardian o tenha apontado como um dos 25 melhores filmes dramáticos/artísticos, numa recolha de 2010 em que também figuram Mulholland Dr., Tokyo Story e Citizen Kane.

Death in Venice. Luchino Visconti (1971)

Artigo publicado também em Sapo Mag

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