30 antes dos 30: Eternal Sunshine of the Spotless Mind

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Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004)

How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d;
Labour and rest, that equal periods keep;
“Obedient slumbers that can wake and weep;”
Desires compos’d, affections ever ev’n,
Tears that delight, and sighs that waft to Heav’n.

in “Eloisa to Abelard”, Alexander Pope

Tirado do poema de Alexander Pope, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é um título propenso a reflexão prolongada. Ou, pelo menos, a minha.

Não pensei no título e no seu significado – agora – tão directo. Nem sempre que fui ouvindo falar deste filme, nem quando o coloquei na lista dos 30 antes dos 30.

A verdade é que o título – o verso – diz tudo o que há para dizer sobre esta história. Como também o fazem outras expressões, que vamos tirando do bolso ocasionalmente para fazer avançar uma conversa.

Ignorance is bliss.

Longe da vista, longe do coração.

A premissa deste filme não vai além disso. É uma metáfora imaginada como se de realidade se tratasse. A beleza está, contudo, na forma como explora as consequências dessa metáfora. É que será sempre mais fácil desejar apagar alguém da história. Rostos, conversas, lugares.

Montauk.

Mas as memórias aconteceram. E merecem ser celebradas. As boas, as más. Por muito que desejem ser esquecidas, estão impressas nessa história que se altera fundamentalmente porque encontra personagens, porque vive momentos, porque avança com o passar de cada dia partilhado com aqueles que convidamos a protagonizá-la. E o próprio tempo acaba por enaltecer os pormenores bons e embaciar as memórias menos bonitas. Por isso, deixemos à ordem natural das coisas o processo de digestão dos capítulos passados.

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Joel (Jim Carrey) e Clem (Kate Winslet) são duas personagens à deriva pela vida. Desencantados um com o outro e com o aborrecimento que parece assumir-se como inevitável em dado momento da relação, decidem aderir ao que parece ser tendência do momento: um tratamento inovador perpetrado por um médico suspeito e um sujeito estranho apaga da memória quem se deseja esquecer. Basta juntar artefactos que façam recordar o esquecido em causa, dirigir bilhetes aos conhecidos para que não toquem no nome proibido e, após uma boa noite de sono, é como se nada tivesse acontecido.

A ironia é dupla. Primeiro, por materializar esse tal desejo impensado de esquecer quem já não está na fotografia. Depois, porque dedicamos tanto esforço e meios a lutar contra todas as formas de esquecimento, essas sim, inevitáveis.

Arrumado o esquecimento, passe-se ao romantismo. Eu – firme apologista de que o que tem de ser, tem muita força – não me convenci com este encontro pós-oblivion. Se o filme é indie o suficiente para dar tantas cores ao cabelo da Kate Winslet, então que pudesse também assumir plenamente a tristeza de um final infeliz. Que a vida tem destas coisas.

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Kate Winslet faz um papel que foge ao seu habitat natural. Assenta-lhe bem. Mas é Jim Carrey quem mais brilha neste filme. É soberbo nas comédias mas o registo psicológico/dramático engrandece-o como actor. Está na lista um dos filmes que mais curiosidade me tem merecido e é por causa de Jim Carrey: Man on the Moon. Vi-o há muitos anos, numa altura em que nem tinha consciência do que significava tudo aquilo. Quero revê-lo agora e acompanhá-lo do documentário da Netflix sobre o comportamento do actor durante aquelas filmagens.

Li, há dias, uma entrevista em que Jim Carrey dizia ter desaparecido na personagem de Andy Kaufman e concluía que, por sermos apenas ideias, é possível desaparecer verdadeiramente. Faz sentido. Perguntaria ao Jim se desaparecemos de nós mesmos ou se nos esquecemos de quem somos. Se se esquecerem de nós – de forma intencional ou acidental -, aí sim, corremos o risco de desaparecer definitivamente.

I see someone who thought they were a person, who was trying to create characters but… How can I put it? Playing Andy Kaufman in Man on the Moon in 1999, for example, I realized that I could lose myself in a character. I could live in a character. It was a choice. And when I finished with that, I took a month to remember who I was. “What do I believe? What are my politics? What do I like and dislike?” It took me a while and I was depressed going back into my concerns and my politics. But there was a shift that had already happened. And the shift was, “Wait a second. If I can put Jim Carrey aside for four months, who is Jim Carrey? Who the hell is that?”

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Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004). Michel Gondry

 

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30 antes dos 30: Fight Club

Fight Club (1999)

No regresso à lista dos 30 antes dos 30, calhou, desta vez, Fight Club.

Para começo de conversa, é preciso dizer que o marketing deste filme anda errado desde o início. Portanto, desde 1999 que o Fight Club aparece com a carinha do Brad Pitt a fazer de porta de entrada. Até percebo o motivo, ou não fossem aqueles os anos áureos do rapaz. Mas este filme não é Brad Pitt (apesar de estar bem, sim). Este filme é Edward Norton.

Edward Norton tinha acabado de dar ao mundo American History X (1998). Aí, surge como um neonazi obstinado, que oscila entre a obrigação de cuidar da família e o vórtex que é o seu grupo de skinheads, até alcançar o arrependimento final. A suástica tatuada no peito é inesquecível, como também o é a cabeça rapada naquela personagem ajoelhada no chão, com um esgar estampado no rosto. Os braços estão musculados e o olhar é confiante.

Em Fight Club, Edward Norton aparece como um tipo emocionalmente desequilibrado. É franzino (perdeu cerca de 10 quilos para este papel) e não parece sequer conseguir enfrentar qualquer adversário com os seus braços magros, nos encontros do clube. Mas o que a personagem não tem de músculo, compensa em dimensão psicológica.

E é quando é revelada essa faceta da personagem de Edward Norton, o narrador, que a história prova que tem o poder de nos desarmar. Se já em 1999 isso seria admirável, hoje, Fight Club parece continuar a sustentar essa força. Deixou-me, pelo menos, boquiaberta, estática e a repetir uma série de “wtf” na  cabeça.

Além da originalidade da história, Fight Club tem o poder de brincar com a mente do espectador. Primeiro, de forma técnica. A figura de Tyler Durden (na pele de Brad Pitt) faz quatro aparições de milésimos de segundo, antes de surgir formalmente no filme, como se o narrador estive a criá-la e a projectá-la na sua realidade. Os mais atentos darão pelo truque, até porque já se conhece bem aquele mito (realidade?) dos frames mostrando de Coca-Colas intrometidos em filmes banais, para puxar à sede dos espectadores de cinema.

Intromissão menos óbvia é a de um aviso que a internet relata. Diz-se que há um frame com uma mensagem escondida do próprio Tyler Durden, que interpela directamente o espectador. “Don’t you have other things to do?”, pergunta ele. “Quit your job. Start a fight. Prove you’re alive. If you don’t claim your humanity you will become a statistic. You have been warned…”

O aviso passa despercebido mas a verdade é que a mensagem do filme fica a amargar na boca, durante uns tempos. Estamos mesmo a tirar o máximo disto? “Prove you’re alive.”

Menos despercebida é a missão que Tyle Durden (Brad Pitt) assume, ao coleccionar desistentes que tenta recolocar no caminho certo. É o caso do empregado da loja de conveniência, que Tyler persuade a retomar os estudos de Biologia ao encostar-lhe uma arma à cabeça. O estilo é persuasivo e violento mas a pergunta impõe-se: será esta personagem quase repulsiva, afinal, bem intencionada?

Arrumado o excelente desempenho dos actores (vale a pena dizer que Meat Loaf e Jared Leto também estão no elenco) e a originalidade da história, falta dar uma palavra à realização e à imagem. Luzes baixas, cenas filmadas sobretudo à noite, iluminação fraca. O sangue tem cor e textura verosímeis. As cenas são apanhadas de pontos de vista inovadores, como quando Edward Norton recebe a chamada de Brad Pitt, sendo filmado do lado de fora da cabine telefónica. Dizia-se que David Fincher estava a criar um estilo. (Ainda falta ver Seven para confirmar ou não.)

Falta dizer que a história é da autoria de Chuck Palahniuk. E que história incrível.

Fight Club (1999). David Fincher

30 antes dos 30: Último Tango em Paris

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Ultimo Tango a Parigi (1972)

Vi-o há alguns meses, mas não escrevi sobre ele, como tenho feito para contar o avanço na lista dos 30 antes dos 30. Controverso, estranho, repulsivo, esperei que me agradasse mais como grande obra do cinema do século XX com o passar de algum tempo. Não aconteceu e agora, que se reacende a polémica em torno da sua filmagem, recupero a opinião imediata que o Último Tango em Paris me deixou e tento traduzi-la em palavras.

Controverso. A polémica cena de sexo anal terá sido talvez o catalizador de uma grande parte da fama deste filme. Não querendo tirar-lhe mérito a Bertolucci, mas já nesses idos anos 70 se sabia que o sexo vende. Vendeu. Vendeu tanto que se formavam filas às portas dos cinemas e os regimes ditatoriais proibiam a exibição da obra. (E quão significativo é que tenha sido trazido para Portugal cinco depois do 25 de Abril?) Vendeu mas não convenceu, porque há mais neste filme além desse momento.

Estranho. É suposto gostar-se das grandes obras do cinema, não é verdade? Debati-me, por isso, com a estranheza do Último Tango. Tentar ler as personagens de Marlon Brando e Maria Schneider, compreendê-las e afeiçoar-me a elas foram tarefas persistentemente combatidas pela atmosfera do próprio filme. Apartamentos quase abandonados de Paris. Uma história que se desenvolvia entre as sombras de cenas escuras e nocturnas. O tom sugestivo da música de Gato Barbieri. O cunho vintage dos seventies nas roupas de Schneider, que hoje parecem mais conjugações inapropriadas a distrair-nos do essencial. O ar quase decadente do actor de quem sempre se ouviu falar como um galã de Hollywood. A quase total ausência de diálogos capazes de sustentar o magnetismo entre as duas personagens.

Repulsivo. O Último Tango em Paris repele enquanto atrai. Envolve enquanto afasta. Coloca-nos a espreitar pelo buraco da fechadura, para dentro dos cantos mais escuros da manifestação humana, onde reina o caos interior.

E agora que o shuffle me leva de Barbieri para “Moon River”, de Mancini, percebo bem o momento de choque histórico que o Último Tango terá sido, naquele ano de 1972. Pouco mais de uma década tinha passado desde que Audrey Hepburn se tornara Holly Golightly em Breakfast at Tiffany’s e o cinema não tinha visto nada como o que Bertolucci acabara de mostrar.

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Ultimo Tango a Parigi (1972). Bernardo Bertolucci

30 antes dos 30: A Flor do Equinócio

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio passou na RTP2 no sábado. Sabendo que estava na lista, e vendo bom cinema na televisão nacional, fiquei a acompanhar este que é um dos filmes da lista e que pertence a um dos maiores mestres do cinema japonês.

Yasujiro Ozu atravessou eras e as suas obras relatam a evolução do cinema como arte. A Flor do Equinócio (Higanbana, no original) foi o primeiro filme que fez a cores e é especial também por esse motivo. Para as filmagens, Ozu escolheu a marca Agfa por achar que essa película representava as cores vermelhas melhor que as Fujifilm e Kodak. Se a princípio o título do filme não parece ter relação com o seu conteúdo, logo percebemos que a importância desta escolha está associada ao nome: a flor do equinócio é vermelha. O resultado é uma paleta de cores esbatida e subtil que não choca por ser a primeira vez que Ozu filma fora do registo preto e branco.

O filme – como a pacata vida japonesa que retrata – pauta-se por uma imperturbável calma. Para isto contribuem os planos estáticos de Ozu. A câmara está parada, são as personagens que entram e saem, no fundo dos planos. São elas que passam pela história, não a história a despontar em torno dos seus acontecimentos.

Até que os sinais da modernidade ameaçam abalar a tranquilidade das tradicionais famílias japonesas que se detêm em vénias intermináveis. Num Japão pós-guerra, um grupo de velhos amigos com vidas confortáveis e filhas em idades casadoiras preocupa-se com a escolha dos genros. Mas algumas jovens atrevem-se a romper com o costume do casamento arranjado pelo chefe de família.

São filhas rebeldes que preferem roupas modernas ao kimono e usam cabelos curtos. Saem de casa sem aprovação dos pais, trabalham em bares, querem pensar por si próprias. Wataru Hirayama é um destes pais e referência moral dos amigos, que o procuram para que ajude a recolocar na linha as jovens dissidentes. Apesar de aceder, Hirayama até vê com bons olhos a livre escolha das filhas, até que a mesma sorte lhe bate à porta. De forma incoerente, não aprova o noivo escolhido pela filha mais velha, Setsuko: um trabalhador de família humilde, que não poderia garantir o nível de vida que o pai lhe proporcionara até então.

O filme desenrola-se na base do conflito tradição/modernidade. A modernidade lá vence, a custo, convencendo-se o patriarca a dar a sua aprovação ao enlace da filha.

Resta a Hirayama os jogos de golfe com os amigos, regados a sake. (Parece que o sake é um dos elementos fortes no cinema de Ozu, mas aqui não tem grande presença.) Nada mais há a fazer senão conformar-se com a rebeldia feminina a que a sociedade japonesa não está habituada, e partir para Hiroshima em visita aos recém casados. A vida continua. Como também continuam os planos estáticos de Ozu, infinitos, com gente a entrar e a sair deles ainda hoje.

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A Flor do Equinócio (1958). Yasujiro Ozu

30 antes dos 30: Cinema Paradiso

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Cinema Paradiso (1988)

Se há um filme em que falar da magia do cinema faz sentido, é este. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, no original italiano) foi escrito e realizado for Giuseppe Tornatore e estreou em 1988. Sempre ouvi falar dele, mas foi preciso estar na lista para finalmente o ver.

Toto é um miúdo apaixonado pelo cinema, mais velho do que a sua altura faz crer. Sobretudo, porque se faz acompanhar (ou persegue, melhor dizendo) de Alfredo, o homem que comanda as projecções do Cinema Paradiso. Toto (Salvatore) fica fascinado por aquele mundo, particularmente pelas cenas de beijos nos filmes que, por censura do padre da aldeia, Alfredo tem de cortar das fitas antes que a população possa vê-los. A aldeia faz do cinema o seu entretenimento. Todas as noites, as crianças partilham cigarros frente ao grande ecrã, os mais velhos adormecem durante as sessões.

A improvável amizade que surge entre os dois é enternecedora e leva Toto a entrar no cinema em chamas para resgatar Alfredo quando, certa noite, o projector se incendeia. Alfredo fica cego e é o pequeno Toto que assume a tarefa de passar os filmes. A cabine de projecção do Nuovo Cinema Paradiso – entretanto reconstruído – passa a ser a sua casa. Aí, Toto torna-se um adolescente e Alfredo a figura paterna que lhe é mais próxima. (O pai havia morrido com outros soldados na Rússia.) Aí vive a primeira paixão. Elena chega à cidade para, pouco depois, desaparecer subitamente quando a família volta a mudar-se.

A pedido de Alfredo, Salvatore deixa a aldeia em busca de uma vida melhor, para nunca mais regressar. Até que, 30 anos depois, volta para o funeral de  Alfredo. A notícia da morte do amigo lança-o numa recordação de toda a história do Paradiso, que é também a sua.

Uma história que é tristemente bonita. Nem quando finalmente Salvatore volta para o funeral de Alfredo se reencontra com a paixão da juventude. (Não se trata de romantismo mas de querer ver alguma coisa a acabar bem ali.) Nessa mesma altura, a aldeia tinha já sucumbido aos hábitos modernos da televisão e VHS, o edifício do Paradiso é demolido. Salvatore assiste ao desaparecimento daquele espaço enquanto a música de Ennio Morricone toca ao fundo. A história é conquistadora mas a música faz o filme, indicando-nos a cada momento o que sentir pelo inverter da composição. Das notas alegres, em tom de desafio, às mais melancólicas. Pode dizer-se de algo que é triste e bonito? Se é permitido, então Cinema Paradiso é triste e bonito.

Se calhar, as histórias tristes e bonitas são as melhores. Cinema Paradiso tem os galardões para o comprovar, pelo menos. Tem um Óscar, vários BAFTAs e um grande prémio de Cannes. Mais do que isso, tem o selo de clássico. E os clássicos nunca passam de moda.

E é um dos melhores que a lista revelou até agora.

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Nuovo Cinema Paradiso (1988). Giuseppe Tornatore