30 antes dos 30: Forrest Gump

Tom Hanks em Forrest Gump (1994)

“Hello, my name is Forrest. Forrest Gump.”

Sentado no banco de uma paragem de autocarros em Savannah, Georgia, Forrest Gump (Tom Hanks) conta aos estranhos que por ali passam a sua vida – desde pequeno, quando a mãe o ensinou a rejeitar ser tratado como inferior por ter um QI abaixo da média, até àquele momento em que se prepara para reencontrar a sua amiga de infância e amor de sempre, Jenny (Robin Wright). A realização de Forrest Gump (1994) é de Robert Zemeckis, o guião de Eric Roth e a história emociona e arranca sorrisos, de forma inesperada. Como numa caixa de chocolates, nunca sabemos o que nos vai calhar. Continue reading

30 antes dos 30: 12 Angry Men

12 Angry Men, de Sidney Lumet

Doze homens fechados numa sala, no dia mais quente do ano, debatem a inocência de um rapaz acusado de matar o pai. Têm em mãos a capacidade de ditar a pena de morte ou a saída em liberdade. Se o rapaz cometeu ou não o crime… Isso não interessa. Na história de 12 Angry Men (1957), realizada por Sidney Lumet, o que importa é a dúvida. “I’m simply asking questions.” Continue reading

30 antes dos 30: Aquele Querido Mês de Agosto

Sónia Bandeira e Fábio Oliveira em Aquele Querido Mês de Agosto

É uma crónica do interior de Portugal no mês mais movimentado do ano. Aquele Querido Mês de Agosto é o produto da tirania financeira do cinema, um resultado que muitos viram como uma lufada de ar fresco. Ficção, documentário ou realidade, tudo o que há neste filme é o olhar do seu realizador – e inventor – Miguel Gomes, sobre o interior de um País que fervilha apenas algumas semanas por ano e o que resta dele nos outros onze meses.

Aquele Querido Mês de Agosto (2008) arranca no Verão de 2006. Estava tudo pronto para começar a filmar quando Miguel Gomes recebe a notícia de que, afinal, não havia dinheiro. O realizador até admite que projectou um “Bem-Hur da Beira”, com quase mil figurantes. Era demasiado ambicioso, mas, fosse o que fosse, chegaria inevitavelmente aquele momento em que a falta de financiamento ameaçava os seus filmes.

Na região da Beira Serra, o calendário de festas estava definido. Miguel Gomes decidiu então não esperar e partiu para aquele interior com uma pequena equipa. Durante esse Verão, filmaram os bailes das aldeias daquela região. Acompanharam romarias. Viram chegar os emigrantes, no seu regresso estival a casa. Conheceram as pessoas que protagonizam as histórias do interior, aquelas que passam de boca em boca e que são responsáveis por baptizar os habitantes e as famílias com nomes jocosos ou convenientes.

Intervalo no projecto para ver o que se fazia com esse material. Miguel Gomes pegou no que tinham filmado e, com a ajuda de Mariana Ricardo e Telmo Churro, reinventou a história, reescreveu o guião, reajustou expectativas. Daqui nasceu a primeira parte de Aquele Querido Mês de Agosto, cujo tom documental permitiu que o filme recebesse o selo da etnoficção.

Em entrevistas ao longo dos anos, Miguel Gomes afastou-se desta classificação e percebemos porquê. Há aqui um lado documental, sim, em cenas como aquela em que Paulo “Moleiro” (assim chamado por causa da actividade do pai) conta a sua história à câmara, em jeito de testemunho noticioso. Paulo relata as peripécias da sua vida, como salta por desafio de uma ponte para o rio Alva, as lesões que coleccionou nessas aventuras e o atropelamento por marroquinos que o acusaram de roubar um casaco. Como remate da história, diz que ainda está à espera de uma indemnização e que vai trabalhando no que pode.

Outro momento deste lado documental é digno de registo ou não fosse ele um retrato caricato a que o humor recorre para representar as pessoas do interior, com direito a vícios de linguagem e sotaques. Um casal idoso relata, com detalhe e leveza, o episódio em que um seu conhecido mata a mulher à machadada. Ele descreve o que aconteceu, como se estivesse à mesa do café a jogar cartas com os companheiros. Ela vai interrompendo a narrativa para atalhar um pormenor ou reforçar uma ideia (“foi a bebedeira”).

Estes quadros em que vamos conhecendo as pessoas das aldeias são intercalados com pedaços da realidade que Miguel Gomes introduz no filme, como o momento em que o produtor Joaquim Carvalho abre uma porta, provocando uma reacção em cadeia: os dominós que o realizador e outros membros da equipa tinham estado a enfileirar em série tombam, uns sobre os outros, antes do tempo. Era para o genérico do filme, diz Gomes, perante a perplexidade do produtor. Aquele episódio dá origem a uma cena em que Joaquim confronta o realizador com as suas escolhas. Se ele achava bem o que andava a fazer à sua equipa. Trabalhar sem um guião fechado, filmar cenas que não constavam do texto… Da mesma forma, nos últimos momentos do filme, Miguel Gomes passa um ralhete a um técnico por estar a ser demasiado criativo na captação do som.

O que quer o realizador sugerir com esta mistura de verdade e ficção? Miguel Gomes vai além da mera apresentação da realidade. Aqui há uma realidade ficcionada, momentos que são fingidos. Para iludir o espectador? Para interromper a atenção? Para reflectir no filme as dificuldades do mundo do cinema?

A razão fica ao critério de quem vê. Certo é que esta forma de fazer cinema tem adeptos e Aquele Querido Mês de Agosto mereceu o respeito da comunidade cinéfila. Surpreendeu em Cannes, venceu no Chile e foi a indicação portuguesa aos Oscars da Academia de 2008.

 

“Trago sorrisos no rosto, porque sei que vou voltar”

Na primeira parte, acompanhamos os bailes das aldeias, cheias de vida e emigrantes que reencontram com a família que ali resiste. O realizador faz questão de nos apresentar um programa de rádio local e uma linha de montagem do jornal de Arganil, onde o filme mais se passa. E mostra-nos o momento em que regressa ao palco onde gravou as primeiras cenas, para apresentar aos actores involuntários o resultado do seu trabalho.

Esse momento divide o filme em dois. As pessoas que vimos a fazerem de si mesmos mergulham na história e transformam-se em personagens. Joaquim é agora Domingos, pai de Tânia (Sónia Bandeira, que tínhamos conhecido no seu trabalho como vigia). Tânia é a voz da banda Estrelas do Alva, que percorre as festas de Arganil a interpretar as músicas populares que vão servindo de pano de fundo ao decorrer do filme. Hélder (Fábio Oliveira) é o guitarrista da banda e sobrinho de Domingos, que passa o Verão na terra do pai, antes de regressar a França.

As personagens orbitam em torno de um segredo. A mãe de Tânia desapareceu. O pai confessa à filha que foi levada por extraterrestres, mas a versão oficial é outra. Na aldeia, diz-se que fugiu. Os rumores materializam-se quando Domingos é anfitrião de uma desgarrada, com os companheiros da aldeia a sugerirem que pai e filha estão envolvidos. A verdade é que Miguel Gomes mostra uma cena, em contraluz, em que o pai abraça a filha. A dada altura, ouvimos Tânia soltar um grito antes de afastar o pai.

A existência desta linha narrativa resgata Aquele Querido Mês de Agosto ao registo monotemática de antes. Até aí, fomos apresentados a figuras-tipo do interior perdido de Portugal. Ouvimos o diz-que-disse sobre este e aquele, conhecemos os heróis locais, escutámos as historietas mirabolantes sobre quem matou quem, como e porquê. Mas agora, aquela banda de baile não é apenas um conjunto que desfila pelas terras de Arganil durante o mês mais concorrido do ano. São personagens, com segredos e vontades mais realistas do que a realidade ficcionada de Miguel Gomes e, talvez por isso, tão próximas dos temas de conversa locais. Temas como o envolvimento dos primos Tânia e Hélder, que passam uma noite juntos depois de o jovem salvar o tio de um incêndio florestal e antes do regresso a França.

Os temas são-nos familiares, é verdade, e ainda assim parecem-nos tão distantes quanto este interior de um País concentrado no litoral. Miguel Gomes não se contém e mostra com todos os dentes a realidade que conheceu, mesmo com personagens espectaculares como as que habitam Amarcord (1973) de Fellini.

Cá dentro, vemos que o arquitecto desta história conseguiu verter um Portugal muito verdadeiro para Aquele Querido Mês de Agosto. De fora, imagina-se que este filme pareça muito estranho e que as letras das músicas populares que aqui são banda sonora se percam algures numa tradução impermeável à identidade de um povo.

Diz a música de Dino Meira:
“Meu querido mês de Agosto/Por ti levo o ano inteiro a sonhar/Trago sorrisos no rosto/Meu querido mês de Agosto/Porque sei que vou voltar”.
O filme de Miguel Gomes, sendo português, não podia fugir ao adorado tema da portugalidade. Mas o tom com que essa ligação é feita não é reprovador, não é envergonhado. Há um orgulho intrínseco em tudo o que são estas pessoas, nas suas peregrinações anuais às aldeias, nos seus jeitos e sotaques e, sobretudo, naquela coisa tão portuguesa que é sofrer por saudade. Quando Celestino (Manuel Soares) abraça o cunhado, Domingos, na despedida antes de partir para França, diz-lhe dolorosamente: “A gente volta. Por muito mau que isto esteja, a gente volta sempre.”

Aquele Querido Mês de Agosto. Miguel Gomes (2008)

Artigo publicado também em Sapo Mag

30 antes dos 30: Paris, Texas

Nastassja Kinski e Harry Dean Stanton em Paris, Texas

Paris é um sítio algures perdido no estado americano do Texas, um sonho para onde Travis caminha há muitos anos. Wim Wenders conta a história de um homem resgatado à sua própria solidão, que tenta reparar os erros da vida. Sem desassossegos ou assombros, Paris, Texas é um filme comovente sobre deixar uma marca no mundo. Antes que o tempo se esgote. Continue reading