30 antes dos 30: 12 Angry Men

12 Angry Men, de Sidney Lumet

Doze homens fechados numa sala, no dia mais quente do ano, debatem a inocência de um rapaz acusado de matar o pai. Têm em mãos a capacidade de ditar a pena de morte ou a saída em liberdade. Se o rapaz cometeu ou não o crime… Isso não interessa. Na história de 12 Angry Men (1957), realizada por Sidney Lumet, o que importa é a dúvida. “I’m simply asking questions.”

Quando Sidney Lumet recebeu o Oscar honorário pelo seu trabalho, em 2005, um dos agradecimentos foi para os irmãos Epstein por terem escrito a frase “here’s looking at you, kid”, de Casablanca (1942). Al Pacino, que entregou o galardão ao realizador, descreveu a energia do realizador atrás das câmaras. Descreveu-o como sendo a própria câmara. O filme 12 Angry Men é o produto destes dois factores – um guião brilhante, de Reginald Rose, e uma realização de enorme inteligência emocional.

O filme abre com um plano do tribunal, que nos situa na acção. Lá dentro, na sala onde decorre o julgamento, o juiz ordena ao júri que recolha para tomar a decisão final. Em causa está a condenação à pena de morte de um jovem rapaz, acusado de assassinar o pai depois de uma discussão, com golpes de uma navalha. O rapaz – vemo-lo uma vez – tem uma figura franzina. Não é óbvio neste plano, mas vamos saber mais tarde que descende de imigrantes, que viveu toda a vida num gueto e que tinha uma relação conturbada com o pai.

Os membros do júri entram na sala onde vai acontecer o resto do filme, num plano sequencial: penduram os casacos, dirigem-se às janelas, movimentam-se no espaço a mostrar traços das suas personalidades. Estamos no dia mais quente do ano e a ventoinha não funciona, o que coloca de imediato os jurados numa situação limite. A expectativa que paira no ar é de que cheguem rapidamente à decisão unânime. Contudo, a primeira votação revela que 11 dos homens têm o rapaz como culpado. Um deles está reticente em tomar essa decisão.

É Henry Fonda quem interpreta o jurado número oito, o dissidente que não se precipita para o voto de condenação por achar que as provas não são conclusivas. Também não o vemos dizer que o rapaz é inocente. Não. Este filme não é sobre a inocência do acusado, mas sim sobre a capacidade cartesiana de duvidar.

Fonda traja de branco, como se a sua personagem fosse a guiar as incertezas do júri, como se fosse responsável por trazer para a luz da dúvida os colegas de painel. Uma dúvida livre de preconceitos. Uma luz mergulhada na humildade de perceber que qualquer um daqueles homens podia estar na cadeira onde se senta o rapaz.

Além do calor transtornante, os 12 homens querem resolver rapidamente o caso. O jurado número sete (Jack Warden) tem bilhetes para um jogo de basebol. A sua postura agitada coincide com a profissão: é vendedor. Já a personagem de Fonda é um arquitecto, o que corresponde à imagem que o espectador constrói dele, quando o vê demonstrar – peça por peça – onde estão os motivos que suscitam dúvidas, na acusação e nas provas.

A história de Reginald Rose é este subtil desenrolar de dúvidas, umas atrás das outras, em que Fonda dirige perguntas aos colegas de painel. Um por um, os jurados convertem o seu voto – o rapaz não é culpado. Não é que seja inocente, mas a dualidade daquele sistema preto e branco (como as cores do filme) não permite ver de outra forma. E a dúvida persiste para lá do fim do filme, porque, afinal, o jurado número 6 (Edward Binns) abordou Fonda na casa-de-banho da sala do júri e plantou nele a pergunta.

“Suppose you talk us all out of this and the kid really did knife his father?”

 

4, 10, 3

Com a ajuda dos que vão aderindo à sua teoria, Fonda deita por terra as provas sólidas da acusação.

O vizinho, que tinha sofrido um AVC recentemente, não podia ter-se deslocado tão depressa quanto dissera para ver o rapaz sair porta fora depois de ouvir o corpo do pai cair no chão.

A vizinha que jurava ter visto o rapaz golpear o pai, do outro lado da rua, não usara os óculos de que evidentemente precisava durante o depoimento em tribunal ou na noite do crime, pelo que podia não ser uma testemunha fiel.

De todos os homens ali presentes, apenas o jurado número quatro mantém a calma quando os ânimos se exaltam. É corretor da bolsa, está habituado a prestar atenção ao detalhe e a manter a cabeça fria. E.G. Marshall dá vida ao número quatro, que considera o álibi do rapaz um engodo porque não conseguira recordar os nomes e protagonistas dos filmes que alegadamente tinha visto no cinema, na noite do ataque. Fonda confronta-o com a elasticidade das suas próprias memórias e aquele homem – o único que não tirara o blazer e que não suava mesmo debaixo de um calor imenso – vê escorrer-lhe uma gota de suor pela testa ao aperceber-se de que a sua própria memória não era assim tão fiável. Apesar da racionalidade das suas convicções e da calma da sua presença, também ele muda de opinião.

Muito menos racional é o jurado número 10 (Ed Begley), que fala sempre em tom alto e agressivo. É sua convicção que “pessoas como o rapaz” cometem aqueles crimes e que não há, por isso, qualquer margem para debate. Estas pessoas a quem se refere são os imigrantes que vivem nos guetos onde o rapaz vivia e onde um dos outros jurados tinha crescido. Torna-se óbvio para a sala que a postura do número 10 é a de um homem toldado pelo preconceito. Assim, numa cena genial, Sidney Lumet dispõe os actores em torno da mesa onde Begley discursa em monólogo aceso. Aos poucos, sem movimentos sincronizados, os homens retiram-se da mesa e a câmara vai-se afastando para nos mostrar que se estão a colocar de costas para o número 10, num protesto silencioso.

Apenas o racional número quatro permanece sentando, a ouvir, antes de acabar aquele momento a dizer ao colega que lhe deu atenção respeitosamente e que deverá calar-se a partir daquele momento. Estas palavras eram desnecessárias porque o realizador acabara de mostrar, com as posições dos actores, que o debate é livre de preconceitos.

Ali cabem apenas os factos e o que os factos dizem. Begley vai sentar-se afastado do grupo, porque a sua visão preconceituosa não tem lugar à mesa. Um dos méritos de 12 Angry Men é a sua intemporalidade. Na verdade, este momento do filme que foi gravado em 1957 podia ser transposto para os nossos dias, onde os factos são distorcidos para suportar meias verdades, em visões parciais da realidade.

Lee J. Cobb é o homem que suscita mais atrito desde o início da história. Assim como Begley, rejeita ouvir a opinião do jurado mais velho (Joseph Sweeney) – completamente destratado na narrativa, ele que acaba por ser decisivo na última peça que desmonta a solidez da acusação.

Cobb vocifera, estica um dedo imperioso aos colegas e fala, fala muito sobre os motivos do rapaz e sobre si mesmo. Dizem-lhe que está a transformar a votação do júri num concurso e numa vingança pessoal e é o próprio que diz que não tem problemas em ficar sozinho, quando é o único a votar “culpado”.

O jurado número três, que sabemos que está desavindo com o seu próprio filho, move-se pelo despeito, pela mágoa e pela crueldade das suas experiências. De cabeça quente, é ele mesmo quem destrói uma das convicções do caso, quando se precipita na direcção de Fonda para o agredir, dizendo que vai matá-lo. Já tinha sido dito no debate que uma tal afirmação a quente podia ter sido dita por qualquer um e que, proferida pelo rapaz, não podia ser prova de que tinha mesmo assassinado o pai.

Não deixa de ser curioso que seja a emoção a derrubar o caso, mas a racionalidade não é o centro desta personagem.

O número três é o último a converter o seu voto, mas esse momento não acontece de forma utilitária. Não interessa à história nem ao realizador que essa votação final seja a resolução do conflito. Por isso, quando os restantes jurados saem da sala depois da concordância, Fonda permanece naquele espaço, recolhe o casaco de Cobb e ajuda-o a vestir-se. É um acto de compaixão que extingue as relações de oposição que nos foram apresentadas – Fonda era o protagonista e Cobb o antagonista. Mas o jurado número oito representava, mais do que isso, a ponderação que afinal existia em cada um daqueles homens. Na verdade, todos eles manifestaram emoções, sentimentos, estádios passíveis de serem encontrados numa só pessoa.

 

A humildade de Sidney Lumet

É difícil não falar da realização de 12 Angry Men nos grandes momentos do filme, como aqueles que foram descritos até aqui porque é ela que dá vida a um guião muito bom.
Sidney Lumet tornou-se um mestre da utilização da câmara no cinema e isso diz muito sobre a forma como nos deu a conhecer estas personagens. No início do filme, somos observadores distantes. A câmara olha para a sala, de cima, num ângulo superior à acção e às personagens. Nesta fase, quase todos estão cheios daquela verdade absoluta.

À medida que a dúvida ocupa o espaço da certeza, os homens vêm as suas convicções abaladas e corrigem humildemente os seus votos. Da mesma forma, a câmara de Lumet desce ao nível dos olhos e chega mesmo a posicionar-se num ângulo inferior às personagens. Os planos abertos são substituídos por imagens próximas dos rostos das personagens, onde se vêm gotas de suor e sobrancelhas carregadas. Lumet transmite a sensação de claustrofobia que já sentimos desde o início só por ver os jurados naquela sala no dia mais quente do ano. Agora que se viram confrontados com a real presunção de inocência, essa claustrofobia é interior, é mais sufocante do que o calor da sala. Essa emoção é de tal forma carregada que o tempo quente dá lugar a uma tempestade, com uma chuva pesada a cair lá fora. Porque o tempo escureceu, acendem-se as luzes da sala e, numa metáfora para aquele momento de libertação, a ventoinha começa a funcionar.

A subtileza destes pormenores dá força ao guião, um guião onde 12 personagens falam entre si, fechadas numa sala. Nos 95 minutos de filme, há exemplos fortes de como a oratória eloquente pode converter votos e opiniões, além de conseguir determinar toda a dinâmica de um grupo.

Nesse sentido, 12 Angry Men é como uma experiência social. Talvez seja por isso que é citado como lição de liderança. A verdade é que Henry Fonda exerce a autoridade moral com um tom de voz moderado e, por questionar em vez de ditar, consegue tocar as mentes até dos mais crédulos colegas de júri. A escolha de Fonda para este papel não podia ter sido mais acertada, com os seus olhos claros e amistosos que nunca convenceram no seu papel de vilão em Once Upon a Time in the West (1968).

Fonda tem também a ser favor os momentos em que o guião revela a enorme humildade da sua personagem, sempre que o jurado número oito reconhece que não sabe se o rapaz é inocente ou culpado. Essa humildade é o que também passa ao ouvirmos Sidney Lumet falar das dúvidas que teve durante a sua carreira. Só essa humildade e uma grande inteligência emocional permitiram que o realizador se tornasse o meio para transmitir a mensagem de 12 Angry Men, como se Sidney Lumet fosse ele mesmo a câmara, uma câmara com a única missão de levar-nos para dentro daquela sala pequena e atravessar as várias emoções que os 12 homens sentiram antes de chegarem ao veredicto final. Sidney Lumet anula-se para que o filme alcance o seu propósito. Contudo, é essa forma de estar que faz com que seja ainda mais notado.

12 Angry Men. Sidney Lumet (1957)

Artigo publicado também em Sapo Mag

One thought on “30 antes dos 30: 12 Angry Men

  1. Pingback: 30 antes dos 30: A lista | Filipa Moreno

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