30 antes dos 30: Snatch

Snatch. Guy Ritchie (2000)

Como se Guy Ritchie tivesse criado o seu universo temático, Snatch (2000) é a versão melhorada de Lock, Stock and Two Smoking Barrels (1998). Uma segunda oportunidade para o realizador alcançar o filme que realmente queria fazer e, através dele, o reconhecimento que ambicionava. A verdade é que a cópia superou o original e cunhou a visão de Ritchie como um realizador de cadência rápida e humor certeiro.

Um diamante valioso é roubado. O seu destino é New York. Guy Ritchie desenrola a história de Snatch como se o diamante escorregasse das mãos de Franky Four Fingers (Benicio del Toro), algures em Londres, e pairasse durante longos minutos no ar, até aterrar nas de Cousin Avi (Dennis Farina), naquela cidade americana. São vários os que o tentam agarrar entretanto, mas o diamante vai rodopiando ao sabor do acaso. E, depois de ir parar ao estômago de um cão, lá chega ao destino.

Sim, tudo parece acontecer ao acaso numa sucessão de histórias paralelas e tão intricadas que nem o seu criador consegue descrever o enredo de forma directa.

Turkish (Jason Statham) e Tommy (Stephen Graham) são protagonistas de Snatch. Malandros de profissão, o seu objectivo é nunca ficar em dívida para com Brick Top (Alan Ford), vilão cujo método preferido é alimentar os seus porcos com aqueles que o desrespeitam ou aborrecem. No seu negócio de apostas ilegais em combates de boxe manipulados, Turkish acaba por ter de recorrer a Mickey (Brad Pitt), cigano de origem irlandesa que se revela um lutador nato. Ao mesmo tempo, Avi viaja até ao Reino Unido para tentar recuperar o diamante, depois de Franky Four Fingers morrer. Avi é ajudado por Bullet Tooth Tony (Vinnie Jones), numa trama em que o feroz Boris The Blade (Rade Serbedzija) se cruza com três ladrões menores.

Estas são apenas algumas das personagens que povoam o submundo do crime organizado que Ritchie criou em Snatch. Por causa do seu sentido de humor aguçado, nenhuma tem um nome verdadeiramente assustador, como a história nos faria esperar.

Esse mesmo sentido de humor cria momentos de excelência em Snatch. Por exemplo, o mesmo cão que transporta o diamante engoliu antes um brinquedo, guinchando sempre que respira. Tony dispara várias vezes sobre Boris, que não morre facilmente. E não resistimos quando vemos Turkish e Tommy perplexos perante o inglês macarrónico de Mickey. (Brad Pitt queria mesmo entrar no filme, pelo que se desenhou especialmente para ele uma personagem, contornando a necessidade de acertar no sotaque londrino certo e permitindo que vestisse a pele do cigano irlandês).

Como argumentista, Guy Ritchie escreveu uma história impregnada do seu humor britânico, mesmo dizendo que pretendia fazer um filme sério.

Como realizador, definiu uma linguagem própria, um estilo inconfundível feito de planos rápidos e intensos. Em Snatch, há movimentos que parecem quase saídos de jogos de vídeo modernos (como o voo de Mickey, depois de receber um golpe e antes de ir aterrar dentro de água). E há músicas que acrescentam dramatismo às cenas, sem perturbar o seu rumo (como “Angel” dos Massive Attack que toca enquanto a caravana de Mickey é consumida pelas chamas, com a sua mãe lá dentro).

A cadência rápida de Snatch é um dos seus maiores trunfos, porque fixa a nossa atenção mesmo quando a história se dispersa demasiado para conseguirmos acompanhá-la. A originalidade dos planos também nos detém alguns momentos. E, noutros tantos, ficamos a admirar aqueles bandidos sem jeito e criminosos mirabolantes, como se tivessem saído de um filme de animação directamente para aquele cenário, de bonecos animados para figuras de carne e osso.

Todos vão tocando no diamante, que continua a pairar e a rodopiar. Mickey e o seu grupo dão o toque final, ao passar a perna a Brick Top. Afinal, o que parecia ser fruto do acaso é uma ardilosa história onde o início e o fim se encontram. Tanto num momento quanto no outro, ali estão Turkish e Tommy a serem bafejados pela sorte. São eles que encontram o diamante e o recolocam na direcção de Avi.

“For every action, there is a reaction”, diz-nos a voz de Jason Statham a narrar o desfecho. Guy Ritchie quer explicar-nos que tudo foi premeditado, que tudo acontece por uma razão.

Fruto do acaso ou destino, Snatch tornou-se um clássico até mesmo no mercado americano. No ano seguinte, chegaria às salas Ocean’s Eleven, onde os bandidos sinistros e caricatos dão lugar a criminosos elegantes…

Snatch. Guy Ritchie (2000)

Artigo publicado também em Sapo Mag

Um pensamento sobre “30 antes dos 30: Snatch

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