30 antes dos 30: Buffalo 66

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Buffalo 66 (1998)

Vincent Gallo é Billy Brown em Buffalo 66.

Billy tem pais disfuncionais que quer impressionar a todo o custo e um amigo que serve o único propósito de confessor do protagonista. Billy tem também um olhar quase sempre vazio de emoção, toldado pelo objectivo máximo de uma vingança que deveria culminar com mortes: a do antigo jogador de futebol americano, que lhe provocou a desgraça financeira através de aposta perdida, e também a sua. Billy é um recluso acabado de sair da prisão, que rapta Layla para pousar como sua mulher frente aos pais neuróticos que o julgam casado e bem na vida.

Christina Ricci é Layla, uma jovem roubada de repente às aulas de dança, que traja um baby doll azul bebé durante todo o filme e sapatos de sapateado a condizer. (E que tem direito a um momento inóspito e hipnotizante em que mostra os seus dotes de sapateado entre um fade in e um fade out, em jeito de intervalo a meio do enredo.)

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Panteão nacional, por Matilde Campilho

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© Filipa Moreno

Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de outro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
ajeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
de um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
na pracinha junto à igreja.
Ou é úlcera ou é amor.»

Matilde Campilho, jóquei

Agora governas tu, agora governo eu

© Partido Socialista

© Partido Socialista

Dei por mim a ler uma entrevista de António Costa. E a gostar. Dizia o líder socialista que as políticas de educação, de formação, de investimento em inovação devem estar entre as prioridades de Portugal no futuro. Muito bem, pensei para comigo, lembrando-me do sucesso numérico das Novas Oportunidades e recuperando de imediato os resultados qualitativos do programa-bandeira de José Sócrates.

Depois, li António Costa a evocar o milagre do investimento que permitirá abrir os cordões à bolsa, ou as portas blindadas dos cofres do Estado. Só assim, claro está, poderemos ter um País que baixa impostos e contribuições sociais, que aposta em políticas de educação que promovam a qualidade e melhorem os nossos níveis de qualificação e formação.

Li um António Costa sebastiânico a afastar o nevoeiro que ensombrou as políticas sociais de Passos Coelho. E perguntei-me se será possível conciliar as duas visões. Num canto, o Estado Social pai, protetor e (e)terno financiador de tudo e mais alguma coisa. Um Estado que cria até emprego se assim for preciso. Um Estado que permite a uns trabalhadores, os da Função Pública, ter horários de trabalho inferiores aos praticados no sector privado. (Li Costa explicar, por outras palavras, que é preciso devolver a motivação aos trabalhadores do Estado).

No outro canto, um Estado que se subtrai à intervenção económica e deixa as empresas livres, leves e soltas, a gerirem por si os seus lucros e perdas. Um Estado que privilegia a iniciativa individual e a criação das oportunidades próprias. Um Estado quase acéfalo em matérias sociais quando confrontado com a obstinada missão de cumprir metas.

Perguntei-me se será possível atingir um equilíbrio ou se, como na moda, estamos condenados a viver a política por ciclos? Agora governas tu, gastas como entenderes. Agora governo eu, para pôr ordem na casa. Será esta uma disputa eterna, com muitos rounds e sem nenhum vencedor?

Li ainda António Costa a esquivar-se completamente à festa que andou a fazer ao Syriza. Pergunta o jornalista se Costa alinha na renegociação da dívida. Responde o artista: «Não tenho visto grande sucesso nos governos que assumiram essa meta como objetivo. Aquilo que digo é que não gostaria de colocar Portugal na posição em que outros, de uma forma voluntarista têm colocado os países que estão a governar.»

Li José Sócrates, perdão, António Costa a indignar-se com a divulgação do SMS enviado ao editor de política do Expresso criticando o que este escreveu sobre o líder socialista. Merece citação: «E que se procure transformar o mártir do SMS em herói da liberdade só me dá vontade de rir. Não acredito que haja algum jornalista que se deixe intimidar ou condicionar por qualquer tipo de SMS.»