30 antes dos 30: Os Verdes Anos

Os Verdes Anos, de Paulo Rocha

“A primeira vez que vi a cidade de Lisboa, pensei comigo: ‘esta terra é como uma dama que tem que ser engatada com muito jeito. Nada de pressas, nada de deitar a mão antes do tempo (…). É preciso, sobretudo, um homem lembrar-se que nasceu numa aldeia de pategos e aprender a aguentar-se’.”

Júlio (Rui Gomes) chega a Lisboa para procurar uma vida melhor. É apadrinhado pelo tio Afonso (Paulo Renato), consegue um trabalho como sapateiro e arranja namoro com Ilda (Isabel Ruth), uma sopeira que trabalha a dias na casa de uma família rica. Tudo parece encaminhado para que Júlio se torne um daqueles chefes de família que hoje ocupam as mesas dos cafés da cidade, que jogam às cartas aos domingos. Mas o destino de Júlio é outro, porque Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha (com António Cunha Telles), é um filme sobre o contraste entre o antigo e o moderno. A metáfora é a incapacidade de Júlio de se adaptar à cidade grande, ele que vem da província para procurar uma vida melhor.

Os Verdes Anos é a primeira longa metragem de Paulo Rocha e um filme único pelo seu contexto. O realizador tinha acabado de regressar de Paris, onde estudara cinema. A ideia era, por isso, recriar o que tinha aprendido e notam-se traços de um cinema moderno que começa a ganhar contornos. Só que esses contornos são ainda muito esbatidos e as técnicas pouco sofisticadas.

O guião é do próprio Paulo Rocha e de Nuno Bragança. Uma das marcas mais evidentes do filme é que os seus diálogos são mais monólogos do que um reflexo dos encontros entre as personagens. Perguntamo-nos mesmo se o objectivo é esse ou se esta comunicação individual resulta apenas de uma direcção de actores pouco experimentada. A dúvida perde força numa cena em que Júlio e Ilda conversam, mas cada um fala dos seus interesses e ambições. As falas entrecruzam-se mas as personagens não respondem um ao outro.

Há uma falta de interacção gritante na cena em que Júlio tenta desfazer-se de uma camisola que o Afonso dera a Ilda, depois de ele ter cortado relações com o tio. Não há diálogos ou uma realização que sustente a força desta cena.

Nos planos, percebe-se que Paulo Rocha tenta reproduzir o que aprendeu. Quando Ilda desfila para Júlio experimentando várias roupas da sua patroa, a câmara acompanha-lhe os movimentos, num plano inovador para os olhares portugueses.

Ainda assim, não é possível deixar de falar sobre o som. As personagens falam e o som está ali num paralelo que nem sempre coincide com a acção.  Por outro lado, o capítulo do som é aquele onde o filme é mais rico. A banda sonora de Os Verdes Anos tem música de Carlos Paredes e a sua guitarra portuguesa melancólica dá o mote à moral deste filme. Lisboa é uma cidade austera, na sua Alvalade de prédios altos e robustos, de ruas longas por onde os protagonistas se passeiam. Júlio, perante estas muralhas de betão, sente-se sozinho e perdido. Nem o trabalho nem a sua Ilda fazem com que se sinta em casa e são várias as cenas em que o vemos deambular ao som desta banda sonora, que dificilmente seria mais portuguesa.

Esta cidade de contrastes é o pano de fundo e também uma personagem muito presente. Júlio e Ilda passeiam por descampados, colinas altas à margem de uma cidade em transformação. São a força de trabalho que está a construir esta nova Lisboa. Ele trabalha como sapateiro numa salinha muito apertada, com mais três ou quatro colegas explorados pelo patrão. Ela é sopeira na casa de uns senhores da alta sociedade, que trocam de roupa consoante os momentos do dia. O facto de Ilda contar este pormenor a Júlio mostra como existem duas realidades muito distantes: a das famílias de bem e a dos seus criados. Os senhores para quem Ilda trabalha falam um português muito articulado e também este traço linguístico é marca das diferenças sociais. O mesmo contraste está presente no subtexto, quando Afonso leva o jovem casal a passear por uma zona de Lisboa que ainda não conheciam. E depois, quando Júlio e Ilda vão com amigos a um baile de domingo e ele, tão deslocado, não consegue dançar ou participar do evento.

Tudo isto cria distância entre Júlio e a sua nova vida, assim como todos os que dela fazem parte. Aquela voz que abre o filme e que nos diz que a cidade “tem que ser engatada com muito jeito”, é premonitória. “É preciso, sobretudo, um homem lembrar-se que nasceu numa aldeia de pategos e aprender a aguentar-se.”

A história é pertinente mas termina em dúvida, porque faltam pedaços de informação para que o espectador possa intuir sobre o que aconteceu – ou, pelo menos, especular. Júlio termina o namoro com o Ilda e vai a casa dos patrões dela para dar a novidade. Ilda cai no chão, com um suspiro, mas não ouvimos o diálogo que provocou essa reacção nem sabemos se Júlio fez algo para provocar a queda.

O filme é inovador e criou escola, tendo até sido reconhecido em Locarno. Percebemos porquê, apesar de todas aquelas insuficiências técnicas, se pensarmos na última cena de Júlio, quando sai disparado e é quase atropelado pelos carros dos senhores da cidade. Ele vê-se em frente a um batalhão de faróis, como se a cidade estivesse a expulsá-lo. A cena é importante mas decorre em câmara lenta. Os carros travam muito devagar, Júlio corre sem grande ameaça pela rua. E só depois deste ritmo tranquilo é que entra o plano em que os faróis olham para o espectador.

Nada de pressas, diz a voz off. Sem pressas mas com passo firme, Os Verdes Anos tornou-se um dos filmes mais importantes do cinema português.

Os Verdes Anos. Paulo Rocha (1963)

Artigo publicado também em Sapo Mag

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