30 antes dos 30: A Flor do Equinócio

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio (1958)

A Flor do Equinócio passou na RTP2 no sábado. Sabendo que estava na lista, e vendo bom cinema na televisão nacional, fiquei a acompanhar este que é um dos filmes de um dos maiores mestres do cinema japonês.

Yasujiro Ozu atravessou eras e as suas obras relatam a evolução do cinema como arte. A Flor do Equinócio (Higanbana, no original) foi o primeiro filme que fez a cores e é especial também por esse motivo. Para as filmagens, Ozu escolheu a marca Agfa por achar que essa película representava as cores vermelhas melhor que a Fujifilm e a Kodak. Se a princípio o título do filme não parece ter relação com o seu conteúdo, logo percebemos que a importância desta escolha está associada ao nome: a flor do equinócio é vermelha. O resultado é uma paleta de cores esbatida e subtil que não choca por ser a primeira vez que Ozu filma fora do registo preto e branco.

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30 antes dos 30: Cinema Paradiso

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Cinema Paradiso (1988)

Se há um filme em que falar da magia do cinema faz sentido, é este. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, no original italiano) foi escrito e realizado for Giuseppe Tornatore e estreou em 1988. Sempre ouvi falar dele, mas foi preciso estar na lista para finalmente o ver.

Toto é um miúdo apaixonado pelo cinema, mais velho do que a sua altura faz crer. Sobretudo, porque se faz acompanhar (ou persegue, melhor dizendo) de Alfredo, o homem que comanda as projecções do Cinema Paradiso. Toto (Salvatore) fica fascinado por aquele mundo, particularmente pelas cenas de beijos nos filmes que, por censura do padre da aldeia, Alfredo tem de cortar das fitas antes que a população possa vê-los. A aldeia faz do cinema o seu entretenimento. Todas as noites, as crianças partilham cigarros frente ao grande ecrã, os mais velhos adormecem durante as sessões.

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Canon Urban Experience

© Filipa Moreno

Hospital Miguel Bombarda © Filipa Moreno

A convite da Canon, e com a Look Mag, fui conhecer as novas máquinas da marca numa apresentação bastante diferente. A ideia era embarcar na Canon Urban Experiencie. O local escolhido fez toda a diferença. Fomos fotografar as ruínas do Hospital Miguel Bombarda.

Em 2011, o antigo hospital psiquiátrico fechou portas. O encerramento das instalações vinha sendo preparado desde 2007 mas hoje parece ter sido tudo feito à pressa. Nas paredes, ainda estão penduradas placas onde os nomes dos pacientes escritos à mão pelos enfermeiros não foram apagados. Há listas com os nomes dos doentes de cada psicólogo nas portas. O Mangas fica com a doutora Coelho.

Nos jardins, a relva cresceu demasiado. E por ser Outono há folhas que se amontoam – dentro e fora de portas. Uma espécie de museu que relata a história das práticas psiquiátricas do hospital (funcionou durante 163 anos) mantém instrumentos antigos, como os ferros cirúrgicos usados para abrir crânios nos anos 30 e 40 que pertenceram a Egas Moniz. Há balneários, cozinhas, salas de reunião e espaços de convívio. Há celas individuais e visores redondos de vidro embutidos nas portas, porque o hospital nasceu como o espaço de acolhimento de alienados, como eram antes tratados os doentes mentais e as práticas acompanhavam o conhecimento da altura sobre as perturbações da mente.  Há um sem número de placas metálicas esquecidas nas paredes, a indicar que aquele presidente visitou o hospital e que as instalações foram construídas graças àqueles médicos.

O espaço está abandonado. Em ruínas preenchidas com intensidade e, neste dia, muita luz. A Canon EOS M10 que experimentei foi ideal para captar alguns pormenores. É leve, prática e muito precisa. É rápida diversificada e permite a partilha imediata de imagens através de Wi-Fi e do sistema NFC. (E tem um ecrã rotativo e um modo especial para as selfies, que também testei.) É perfeita para os que gostam de passear na cidade.

Ficam algumas imagens.

30 antes dos 30: The Big Lebowski

The Big Lebowski (1998)

The Big Lebowski (1998)

Joel e Ethan Coen entregam histórias estranhas e cativantes. Fazem equilíbrios perfeitos entre enredos inusitados e humor subtil. The Big Lebowski é assim.

Três dos meus conselheiros tinham determinado que não podia passar dos 30 sem ver este filme. As expectativas eram elevadas mas nada do que encontrei aqui correspondia ao que esperava. Sem conhecer a história (suspeito que era a única pessoa), foi fácil imaginar uma personagem maior para Jeff Bridges do que a de um pacifista arraçado de bum. Valeram-lhe os White Russians, os man a fechar cada frase e aquele jeito descontraído com que encara a sucessão de infortúnios que lhe acontecem. (Quem é que se preocuparia com o tapete da entrada depois de ver a sua cabeça enfiada na sanita?) Valeu-lhe também o efeito da idade. É que este filme saiu em 1998, ainda eu não tinha completado uma década e o Jeff, um perfeito jovem de quase 50 anos, apresentava muito menos rugas do que hoje. Perdoem-me a fraca memória, mas o Jeff Bridges que eu conheço é o do True Grit, onde este cabelo pelos ombros à surfista (a fazer lembrar o Eddie Vedder) é substituído por madeixas rudes e brancas, presas debaixo de um chapéu empoeirado.

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All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Chovia e eu escolhia o meu Beatle preferido. Lembro-me sempre de trautear os primeiros acordes de “Here Comes the Sun” quando o tempo pede sofá e manta.

Sei que é contra-senso mas, também, todos preferem o Lennon ou o McCartney. Ou o Ringo porque tem o nome mais dado à fama que alguém alguma vez conseguiu inventar e nem aquele nariz lhe roubou seguidores. Se calhar é o preferido de alguém por causa do nariz e do ar tonto que lhe dá.

Chovia e o George Harrison havia composto a melhor música de amor dos últimos 50 anos. A opinião do Frank Sinatra é de confiar. É sempre bom confiar naqueles que se fazem acompanhar de um copo de Jack Daniel’s. Qualquer bebida torna as pessoas mais francas mas a preferência insistente por uma, em particular, é sinal de lealdade. Entre a sinceridade e a lealdade é que se está bem.

Foi o “quiet Beatle”. Desviou-se das atenções em que se banhavam os dois vocalistas. Concentrou-se na sua arte. Desenhou algumas das mais belas histórias para guitarras. Histórias, porque não se limitava a escrever uma série de acordes. Antes, preocupava-se com a sucessão entre eles, para dar sentido ao conjunto que cada linha fazia soar na guitarra. My guitar gently weeps… Ao fim de uns tempos, conseguiu que os Beatles gravassem as suas composições. Chegou a dar voz a versos da banda e é a sua que se ouve em “Do You Want to Know a Secret”.

Descobriu uma religião diferente e descobriu-se a si mesmo. Entre o hinduísmo e o psicadelismo, lá estava George Harrison. Quando os Beatles se afastaram, continuou a experimentar os sons que tinha dentro de si. Até que, algures nos anos 70, fez All Things Must Pass. A gravação do álbum (triplo) foi a sua estreia a solo definitiva.

Aposto que chovia. Sim, chovia como hoje e o George dava este título tão maravilhoso quanto premonitório ao disco. Claro que é um cliché mas é um daqueles que sempre repetimos para nós próprios, baixinho, para se fazer ouvir cá dentro. Também isto acabará por passar.

Fiquei a ouvir enquanto pensava que, realmente, tudo passa. Passa a turbulência que se estende por um ano inteiro. Passam as coisas boas e até um dia passam as memórias que delas ficam, quando já estamos demasiado distantes de tudo para nos lembrarmos de que dia é.

Hoje ainda é 25. E já é um ano depois de tudo se ter lançado numa daquelas espirais que os economistas sabem ler nos números. Eu, que não sou economista, nunca poderia ter previsto esta.

Mas o George diz que passa. E que o sol chega sempre depois de invernos que parecem durar anos a fio. E, afinal, ele é o meu Beatle preferido.