But their time is up.
Oprah’s Cecil B. de Mille Award acceptance speech at the 2018 Golden Globes
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Vale de Carvão não aparece facilmente nos mapas. Não está nos GPS mais avançados. Não se encontra perguntando. Só com uma longa lista de direcções rudimentares (“vira depois daquelas caixas de correio”, “logo a seguir a uma pequena subida”), conseguimos encontrar o The Barn, já a noite tinha caído por ali.
O Pete e a Teresa estavam à nossa espera, com uma garrafa de vinho e algumas uvas produzidas ali mesmo. Ali: numa localidade chamada Santo António das Areias, dentro do Parque Natural da Serra de São Mamede, onde o Vale de Carvão fica apenas a alguns passos a pé da vizinha Espanha. Ali se construiu esta cabana rústica (“charme rústico”, como se fosse uma categoria de pesquisa) de portas envidraçadas, rodeadas de videiras.
O The Barn aquece só de olhar: é forrado a madeiras e tecidos quentes. Está recheado de pormenores atenciosos e, acredito, memórias vividas. Somos sempre acompanhados pelos badalos das ovelhas vizinhas e, ocasionalmente, o cair de um dióspiro maduro no chão rompe um pequeno-almoço soalheiro e tranquilo – esborracha-se no chão, para curiosidade do gato que nos visita, sempre com sede de mimo. Cozinhámos num verdadeiro forno a lenha, que o Pete concordou em acender para nós, apesar da temperatura de quase Verão, e enchemos o espaço daquele cheiro a casa.
Fomos deitando olho às informações de incêndios e, durante quatro dias, foram quase sempre 11 a arder no distrito. Tapámos os ouvidos a tudo o resto, ao barulho da cidade, às buzinas, às campainhas, às notificações. Ficámos ali, a ler ao sol, a percorrer algumas cordas de guitarra, a conversar e a rir (…) entre um e outro copo de vinho.

Fight Club (1999)
No regresso à lista dos 30 antes dos 30, calhou, desta vez, Fight Club.
Para começo de conversa, é preciso dizer que o marketing deste filme anda errado desde o início. Portanto, desde 1999 que o Fight Club aparece com a carinha do Brad Pitt a fazer de porta de entrada. Até percebo o motivo, ou não fossem aqueles os anos áureos do rapaz. Mas este filme não é Brad Pitt (apesar de estar bem, sim). Este filme é Edward Norton.
Edward Norton tinha acabado de dar ao mundo American History X (1998). Aí, surge como um neonazi obstinado, que oscila entre a obrigação de cuidar da família e o vórtex que é o seu grupo de skinheads, até alcançar o arrependimento final. A suástica tatuada no peito é inesquecível, como também o é a cabeça rapada naquela personagem ajoelhada no chão, com um esgar estampado no rosto. Os braços estão musculados e o olhar é confiante.

Campi Flegrei. No sentido literal, uma terra em chamas. Ali perto, Nápoles (a cidade) é mais ponto de passagem para a costa e as ilhas do que destino final de tantos e tantos visitantes.
Foi o da viagem número dois. Uma cidade que é berço da pizza e pouco mais. Uma cidade que recebe e mastiga os turistas porque, afinal, também o faz com os locais. A eles, endurece-lhes a pele. Se lhes descobrem umas ruínas romanas nas bases das casas, não aceitam desertar.
A nós, quase nos repele – irremediavelmente, se decidirmos acordar noutro poiso na manhã seguinte. A Nápoles da pizza original (a da Sorbillo), dos cafés expresso tirados a ferver, dos Maradonas homenageados em cada esquina e dos presépios pintados à mão em centenas e centenas de peças.
A Nápoles dos pizzaiolos, das obras que parecem durar há anos, dos napolitanos franzinos mas enamorados.
A Nápoles da Spritz e dos homens que cantam a todo o momento, como se a vida napolitana custasse menos a viver por ser cantada.
A Nápoles dos altares, dos metros impossíveis de tomar e dos pedintes que se estendem pelas ruas, como há décadas já não se vê por cá.
A Nápoles do Vesúvio magistral, em constante pano de fundo. A Nápoles dos 414 degraus, de Sant’Elmo ao Bairro Espanhol. Essa Nápoles dos corajosos que correram, eles mesmos, com os nazis.
A Nápoles do manjericão plantado às portas de casa. A Nápoles dos limoncellos tragados em fins de tarde, em fins de praças cheias de gentes que não compreendem Nápoles.
A Nápoles dos vendedores de parmigiano, que encantam entre um tesoro e outro amore.
A Nápoles das saudades de quem tudo quer levar para partilhar em casa e a das saudades que deixa.
Napoli, you motherfucner*, és um osso duro de roer. Ma ti voglio bene.
Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice
Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 – onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá. Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era “You Oughta Know”, da Alanis.
Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.
Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.
Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois — acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.
Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de “How I Met Your Mother”. Mais que no começo de “Up”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.
Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos — não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme — e em tantos vídeos, músicas e crônicas. Não falta nada.
Gregorio Duvivier sobre Clarice Falcão
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