A última Coca-cola no deserto

Paisagem do arquipélago das Berlengas

Berlenga, julho 2020

Em 2019, a lei determinou que só 550 pessoas podem estar nas Berlengas. Num dia de 30º, não foi difícil descobrir que esse é um limite incomportável.

Num frenesim, as operadoras que fazem a travessia Peniche-Berlengas-Peniche procuravam ocupar todos os lugares. Não interessava tanto quem mais facturava, desde que fossem vendidos todos os bilhetes disponíveis. O distanciamento não existia naqueles barcos, como se certas regras não se aplicassem no mar.

A chegada a terra pouco fez para diluir os visitantes no espaço da ilha. Os trilhos onde podemos pisar são limitados e as aves do arquipélago garantem que não damos um passo em falso. Destemidas, rasam-nos as cabeças a comunicar que aquele não é um espaço das pessoas, muito menos de quem está de passagem.

O percurso acaba por ser o de quase toda a gente que ali vai. Uma subida ao farol, uma descida ao forte, um mergulho muito rápido entre dois barcos e o regresso. A polícia evacua por duas vezes a praia que prometia os melhores banhos, enquanto o calor pede mergulhos.

Para aliviar a sede e repor energias, entro no bar junto ao porto e peço uma bebida. Espero pelo barco do regresso com uma lata de Coca-cola entre as mãos, o que não é um hábito mas um acaso.

Ali mesmo ao lado, vários contentores de lixo esperam também pelo seu transporte. Um pouco por toda a Berlenga Grande existem avisos – leve o seu lixo consigo. Com aquela lata vermelha nas mãos e uma palhinha verde, a bebida sabe-me a culpa.

A lavagem recente da série The Politician (justificada, assumida e útil) acrescenta-me avisos à consciência. A série é ficção mas as manchas de lixo na água, pelas quais passámos à chegada ao arquipélago, são bem reais. Como também são reais as máscaras descartáveis deitadas ao chão e o exagero de visitantes na ilha, que parece mais colónia balnear do que reserva natural.

Pensemos em cada uma das 550 pessoas que ali podem estar (em simultâneo, como diz a lei, a abrir a porta à alta rotação das viagens das operadoras, rentabilizando as visitas em turnos de 4 horas). E se cada uma consumir também uma lata de refrigerante, uma garrafa de água?

No regresso, somos brindados pela visita de um grupo de golfinhos em passeio. Não estão ali para se alimentar, dizem-nos, mas para nos cumprimentarem. A repetição do avistamento tinha-me feito esquecer de como é um momento excepcional.

Seguimos viagem. Não estou perto de recolher a água do banho para fazer o café da manhã, mas tenho a certeza de que aquela foi a última lata de Coca-cola no deserto.

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