30 antes dos 30: The Shining

Danny Torrance, The Shining, 1980

O poster promocional de The Shining classifica o filme como uma “obra-prima do terror moderno”. A descrição é justa e inquestionável. Stanley Kubrick e Jack Nicholson fizeram o melhor filme de terror dos nossos tempos.

A história é de Stephen King e data de 1977. O filme chegou em 1980. Desde então, King e Kubrick foram trocando ligeiros acertos de contas em entrevistas. Parece que Kubrick não quis sequer olhar para o guião que King fez e preferiu adaptar o texto do filme com a argumentista Diane Johnson.

A escolha pode ser justificada com a personalidade de Kubrick e o seu gosto pelo imprevisível. Ter o controlo sobre o guião permitia contornar as certezas de quem já conhecia a história pelo livro. Na versão do realizador, o enredo centra-se em Jack Torrance (Jack Nicholson), um professor com aspirações a ser escritor que é contratado para tomar conta do Overlook Hotel durante o período rigoroso das tempestades do Colorado. A família muda-se para o hotel e a esposa, Wendy (Shelley Duvall), dedica-se ao filho do casal. Mas Danny (Danny Lloyd) tem capacidades sobrenaturais que lhe revelam a trágica natureza do hotel, onde um dos empregados contratado para a mesma função que Jack agora desempenha não resiste à insanidade do isolamento e mata, com um machado, a mulher e as duas filhas.

Jack Torrance – alcoólico em recuperação que revela traços violentos contra a família – acaba por seguir o mesmo caminho. A história de The Shining é a sua perda de lucidez, adivinhada por Danny.

Na narrativa, não se vê acontecer muito mais do que isso. A história evolui no espectador – é a sensação de terror que se adensa a cada cena. No final do filme, contudo, quando o terror sossega, ficamos órfãos de explicações. O que representa a fotografia do final? Até que ponto Jack pertence ao Overlook Hotel? Teria pertencido antes, numa repetição da história noutra década?

O filme acontece com aquela narrativa escassa mas nem por isso ficamos aborrecidos. A estratégia de Kubrick passa por carregar na expectativa através de música dramática e crescente e de close ups repentinos, que nos deixam à espera de algo que nem sempre chega a acontecer. Desde a cena inicial (os créditos do filme aparecem sobrepostos em paisagens genéricas, de um céu muito azul), a música é mesmo um dos elementos centrais do filme. Mas, por vezes, não pretende significar nada mais do que uma subida de tensão. E faz-nos avançar mais um bocadinho na ponta do sofá.

Tecnologia moderna na altura, a steadicam cativou Kubrick. Foi com ela que se filmaram as cenas de Danny a percorrer de triciclo os corredores do hotel e, num dos momentos mais icónicos do filme, a encontrar-se com os fantasmas das quase-gémeas ali assassinadas. A steadicam permitiu-lhe explorar ângulos originais, como a cena em que Jack tenta convencer Wendy a libertá-lo da dispensa onde esta o havia trancado.

A vastidão dos recursos não mitigou o método de trabalho de Kubrick, que acreditava em levar ao extremo os seus actores como caminho para extrair deles a interpretação mais verdadeira. Parece que Kubrick exagerou com Shelley Duvall, que descreveu à época um ambiente a que hoje chamaríamos bullying. A actriz falava de uma relação muito tensa com o realizador, num clima próximo da tortura psicológica. Percebe-se bem por que motivo a personagem de Shelley Duvall passa todo o filme à beira de um colapso nervoso, desfeita em lágrimas, mesmo antes dos comportamentos mais violentos do marido. A cena em que Jack avança sobre Wendy, que se defende com um taco de basebol, terá sido repetida 127 vezes. Nessa cena, Kubrick fez com que Shelley Duvall caminhasse de costas por largos minutos, recuando perante Jack e atravessando todo o salão que o marido usava como espaço de trabalho, até chegar à escadaria que também sobe de costas… Ver a cena já é um exercício de suspense incrível, em que questionamos se ela vai mesmo subir as escadas ou se vai conseguir escapar… É impensável ter de recriar aquela tensão, em mais de cem takes.

Jack Nicholson parece ter lidado melhor com a pressão mas há que dizer que, até em momentos de pausa, parece alucinado. Os olhos escuros e muito abertos são quase marca do actor, que improvisou a fala mais conhecida do filme: “here’s Johnny!”. No documentário sobre The Shining, feito pela filha de Kubrick, vemos Nicholson nas roupas do protagonista a fazer conversa ou a executar tarefas tão mundanas quanto lavar os dentes – e, mesmo aí, parece um excêntrico. Nos papéis da sua carreira, quando não é vilão ou anti-herói, Jack Nicholson é, no mínimo, um sarcástico intragável.

A interpretação de Nicholson faz duvidar da perversidade do Overlook Hotel, uma vez que deixa o espectador na dúvida sobre a veracidade do sobrenatural. Os fantasmas que Jack vê, como Delbert Grady, existem no filme ou são produto da sua mente doente? Teria sido mais credível atribuir as figuras que se sabe estarem mortas à criatividade de Jack como escritor ou mesmo à sua psicose.

No capítulo dos actores, falta falar sobre Danny Lloyd, que dá vida ao pequeno Danny. Com apenas cinco anos, a concentração que revela surpreende – está espelhada nos seus olhos, quando prevê o que de terrível está para vir. O cabelo à Beatle acentua-lhe os traços queridos e faz-nos desejar que nada de mal lhe aconteça. Stanley Kubrick também terá tentado proteger a criança, nunca o expondo às cenas mais violentas do filme e não exigindo dele a mesma intensidade que cobrava aos demais actores. Além disso, Danny achava que estava a filmar um drama e não um filme de terror (que só viu inteiramente já na adolescência).

Foi graças à história de Stephen King, à realização de Stanley Kubrick e à interpretação de Jack Nicholson que The Shining ganhou dimensão como filme de culto. Há quem prefira apontar-lhe as falhas: os adeptos da história original condenam Kubrick por deixar de fora algumas das cenas mais interessantes e, pelo que dizem, verdadeiramente assustadoras. Diga-se que, no livro, o Overlook Hotel é o verdadeiro protagonista da história enquanto que, no filme, Jack Torrance mostra-se desde logo um psicopata em stand by. Por outro lado, a persona de Stanley Kubrick e o próprio filme prestam-se às inúmeras teorias da conspiração que se multiplicaram.

Tudo isto são ingredientes que fazem de The Shining aquilo que o poster antecipava: uma obra-prima do terror moderno. Porque não há nada tão negro e obscuro quanto a natureza humana.

The Shining, Stanley Kubrick (1980)

Artigo publicado também em Sapo Mag

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