La La Land: A vida não é como nos filmes

“La La Land” é o filme-sensação da temporada e o grande favorito aos Óscares.

Emma Stone e Ryan Gosling dão vida ao par romântico que protagoniza a história. O par romântico – aqui está o primeiro sinal de que “La La Land” não recupera só a tradição dos grandes musicais de Hollywood, como tem sido tão comentado. Mais do que isso, o que aqui se faz é recuperar a tradição dos grandes filmes de Hollywood.

Que não se pense só em “West Side Story” ou “Singing in the Rain”. É verdade que Ryan Gosling também se pendura de um candeeiro. (Mas, ó Gene Kelly, ele não se ri como tu.) É verdade que há uma canção, cujos acordes se vão repetindo ao longo da história, que as personagens identificam de imediato e o que espectador reconhece como sinal de um momento marcante. Da mesma forma que Rick vai pedindo a Sam que repita as notas de “As Time Goes By“, em “Casablanca”. (E até aqui o Seb’s é decalcado do Rick’s).

“La La Land” não se limita a copiar. Homenageia. Não repete o que Hollywood já fez durante décadas, nos tempos do bom cinema e das grandes estrelas; de quando o preto e branco desapareceu para deixar ver os vermelhos vivos dos batons das actrizes. Em vez de repetir, resgata do esquecimento da produção cinematográfica em série, de hoje, a capacidade de produzir uma história clássica, num formato clássico.

Não falta nada. Além da música e da dança, está lá a grande história de amor, de duas personagens que o acaso insiste em juntar. Está lá a admiração por aquela época de ouro do cinema, vivida nos bastidores onde são feitos os filmes, tal como em “Singing in the Rain”. Está o carisma dos protagonistas, como que a relembrar os nomes que ainda hoje celebramos, Hepburn (Audrey e Katharine), Davis, Hayworth, Gardner, Bergman. Bogart, Astaire, Kelly, Grant, até Sinatra. Está um rol de momentos de sapateado. Estão os cenários que desaparecem para focar uma só personagem. Está até o uso de uma palavra ridícula mas característica (Fred Astaire em “Funny Face”, com o clássico s’wonderful).

Há aqui tanta nostalgia, que imagino Woody Allen consumido pela sua incompreensão habitual, de quem anda, há anos, a tentar fazer filmes como os de antigamente.

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Mas (e porque nestes filmes há sempre um mas) “La La Land” acaba por falhar. Enche-nos de expectativas no mais ingénuo desejo de que tudo corra bem com aquela bonita história. Achamos que tudo acabará bem, porque foi com estes clássicos que aprendemos que, nos filmes, tudo é perfeito. Mas “La La Land” acaba a tornar-se aquilo de que tentou fugir: um filme moderno. E, como qualquer filme dos nossos dias, não resiste a deixar para trás a sua versão cor-de-rosa e a dar-nos um verdadeiro banho de realidade.

É que, afinal, a vida não é como nos filmes. Não acabamos a dançar com vestidos brilhantes numa coreografia olímpica. Não acabamos num freeze frame de um beijo rápido (que Hollywood não deixava que os beijos se prolongassem além dos três segundos, naquela altura). Até porque – francamente – quem é que sabe sapateado, hoje em dia?

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