30 antes dos 30: Brutti, sporchi e cattivi

Do alto de uma colina daquela favela romana, uma adolescente de galochas amarelas aponta, ao longe, a casa onde vai servir nesse dia. É uma personagem que flutua entre a inocência das crianças e os vícios vis dos adultos que povoam aquela comuna. No final da história, a mesma adolescente desperta para mais um dia de trabalho e carrega vários contentores até uma fonte para os encher com água. Terá perto de 16 anos e está grávida.

Brutti, sporchi e cattivi (1976) é um dos filmes mais destacados de Ettore Scola. É uma das suas comédias e cumpre esse papel, mas não deixa de convidar à reflexão, porque exagera uma realidade que nos faz duvidar sobre o que é verdade e o que pertence à fantasia.

Numa pequena casa na periferia de Roma, sem as mais básicas condições, vive uma família: a avó, o pai, a mãe, uns quantos filhos e as suas mulheres e descendência. Amontoados num só compartimento, os dias passam-se naquela dança da sobrevivência: os que podem trabalhar, tentam fazê-lo; a avó ocupa o tempo em frente à televisão; a mãe cuida dos netos, cozinha, cochicha com as vizinhas. As noites são outra dança: o pai está convencido de que a prole quer roubar-lhe o milhão com que foi indemnizado por ter perdido um olho. Os filhos, as noras e os netos tentam, de facto, descobrir onde está escondido o dinheiro.

Giacinto (Nino Manfredi) é o patriarca, embora o cinzento falseado do cabelo lhe tire credibilidade. Todos os dias, jura vingar-se daquela família de vampiros que quer sugar-lhe a sua pequena fortuna, até que conhece uma rapariga e, sem qualquer pudor, leva-a para viver (mais uma) na casa da família. Ferindo o orgulho da esposa, fá-la partilhar a cama com a sua nova amante, com quem gasta mais dinheiro do que dá a qualquer um dos familiares. A mãe articula com os filhos a vingança: vão misturar veneno de ratos no prato de massa que lhe servirão. Morto, deixará por herança o dinheiro – nem que seja à força. Só que o homem sobrevive e, para retaliação, pega fogo à habitação da família. Quando todos escapam, Giacinto engendra novo plano: vende a casa a uma outra família, igualmente numerosa. Como os primeiros inquilinos se recusam a sair, os habitantes dobram de número – cabem todos naquela pequena divisão.

Enquanto o enredo serve o propósito cómico do filme, os planos demorados em que conhecemos a favela e a forma como vivem aquelas pessoas é o rastilho da reflexão. E aí, as leituras sociais e políticas encontram material de sobra. São italianas aquelas famílias numerosas, que não se separam por nada, nem mesmo porque alguns membros encontram melhores condições de vida noutro sítio. São italianas aquelas famílias que se juntam em torno de um prato de comida. São italianos, sim, e muito pobres. Olham de longe para a cidade grande, ao fundo, onde chegam apenas nas suas motorizadas ou através do comboio que passa ali bem perto.

Alguém dizia que o cinema conta a história do seu povo. Talvez por isso o cinema português seja tão melancólico em ritmo, triste na cadência. Se é verdade que o cinema tem essa veia autobiográfica, então Ettore Scola estaria a retratar um período da história italiana, socorrendo-se de exageros, é claro, mas retirando a acção do centro da cidade para onde outros olharam. Aqui, não vemos Audrey Hepburn e Gregory Peck a deslizar de vespa pelas ruas da capital. Estamos na favela, tudo é sujo – como as cores da imagem querem acentuar. A vida corre devagar, como é também devagar que se sobe a colina até ao amontoado de casas da comuna. Os banhos são tomados de alguidar, não há canalização nem condições mínimas de existência. As personagens trocam de parceiro ao ritmo das vontades que os tomam de assalto, numa sociedade onde nem a religião impõe pudores.

Sendo uma comédia, Brutti, sporchi e cattivi tem, por vezes, um efeito repelente. A natureza humana desce assim tanto? A resposta é clara e Ettore Scola faz questão de a dar, para que não restem dúvidas. Escolhe terminar o filme a revelar que aquela adolescente de galochas amarelas está agora grávida. Não passa de uma criança. Mas tinha mostrado admiração pela irmã, que ganha a vida como modelo de revistas eróticas (para orgulho da mãe). Finda a história, o realizador mostra-nos a perda da inocência e a entrada num mundo cru que é o daqueles adultos. É o golpe final de um filme que não faz mais do que mostrar como o dinheiro corrompe até os laços familiares mais estreitos e que aquelas pessoas são demasiado fracas para resistir aos vícios e às perversões.

O retrato é sujo, mas era mesmo essa a intenção de Scola ou não tivesse ele dado a este filme o título que tem. O que é certo é que, sendo um retrato da vil experiência da humanidade, Brutti, sporchi e cattivi recebeu a distinção de melhor realização em Cannes. E Cannes – do requinte e das passadeiras vermelhas onde desfila a nata do cinema – é um ambiente onde não se consegue imaginar qualquer uma destas personagens. Também é essa a força do cinema.

Brutti, sporchi e cattivi, Ettore Scola (1976)

Artigo publicado também em Sapo Mag

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La La Land: A vida não é como nos filmes

“La La Land” é o filme-sensação da temporada e o grande favorito aos Óscares.

Emma Stone e Ryan Gosling dão vida ao par romântico que protagoniza a história. O par romântico – aqui está o primeiro sinal de que “La La Land” não recupera só a tradição dos grandes musicais de Hollywood, como tem sido tão comentado. Mais do que isso, o que aqui se faz é recuperar a tradição dos grandes filmes de Hollywood.

Que não se pense só em “West Side Story” ou “Singing in the Rain”. É verdade que Ryan Gosling também se pendura de um candeeiro. (Mas, ó Gene Kelly, ele não se ri como tu.) É verdade que há uma canção, cujos acordes se vão repetindo ao longo da história, que as personagens identificam de imediato e o que espectador reconhece como sinal de um momento marcante. Da mesma forma que Rick vai pedindo a Sam que repita as notas de “As Time Goes By“, em “Casablanca”. (E até aqui o Seb’s é decalcado do Rick’s).

“La La Land” não se limita a copiar. Homenageia. Não repete o que Hollywood já fez durante décadas, nos tempos do bom cinema e das grandes estrelas; de quando o preto e branco desapareceu para deixar ver os vermelhos vivos dos batons das actrizes. Em vez de repetir, resgata do esquecimento da produção cinematográfica em série, de hoje, a capacidade de produzir uma história clássica, num formato clássico.

Não falta nada. Além da música e da dança, está lá a grande história de amor, de duas personagens que o acaso insiste em juntar. Está lá a admiração por aquela época de ouro do cinema, vivida nos bastidores onde são feitos os filmes, tal como em “Singing in the Rain”. Está o carisma dos protagonistas, como que a relembrar os nomes que ainda hoje celebramos, Hepburn (Audrey e Katharine), Davis, Hayworth, Gardner, Bergman. Bogart, Astaire, Kelly, Grant, até Sinatra. Está um rol de momentos de sapateado. Estão os cenários que desaparecem para focar uma só personagem. Está até o uso de uma palavra ridícula mas característica (Fred Astaire em “Funny Face”, com o clássico s’wonderful).

Há aqui tanta nostalgia, que imagino Woody Allen consumido pela sua incompreensão habitual, de quem anda, há anos, a tentar fazer filmes como os de antigamente.

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Mas (e porque nestes filmes há sempre um mas) “La La Land” acaba por falhar. Enche-nos de expectativas no mais ingénuo desejo de que tudo corra bem com aquela bonita história. Achamos que tudo acabará bem, porque foi com estes clássicos que aprendemos que, nos filmes, tudo é perfeito. Mas “La La Land” acaba a tornar-se aquilo de que tentou fugir: um filme moderno. E, como qualquer filme dos nossos dias, não resiste a deixar para trás a sua versão cor-de-rosa e a dar-nos um verdadeiro banho de realidade.

É que, afinal, a vida não é como nos filmes. Não acabamos a dançar com vestidos brilhantes numa coreografia olímpica. Não acabamos num freeze frame de um beijo rápido (que Hollywood não deixava que os beijos se prolongassem além dos três segundos, naquela altura). Até porque – francamente – quem é que sabe sapateado, hoje em dia?

30 antes dos 30: Último Tango em Paris

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Ultimo Tango a Parigi (1972)

Controverso, estranho, repulsivo – Ultimo Tango a Parigi é talvez o filme que mais palco deu a Bernardo Bertolucci mas marcou mais pela polémica do que pelo valor como grande obra do cinema do século XX.

Marlon Brando e Maria Schneider dão vida ao filme de 1972, que as etiquetas do cinema viriam a cunhar como drama erótico. Brando é Paul, um americano que vela o suicídio da mulher em Paris, onde conhece a jovem Jeanne, interpretada por Schneider. Umas quantas ruas escuras depois, os protagonistas iniciam uma ligação sexual em que, como regra, não podem partilhar qualquer informação pessoal. A relação torna-se uma sucessão de encontros fortuitos, num tom quase obsessivo e seguramente tóxico, de duas pessoas que procuram um no outro a expiação dos seus fantasmas.

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