A carteira ou a vida: Portugal, a troika de esquerda e o Euro

© Partido Socialista/Flickr

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O Wonkblog reflectiu hoje sobre o impasse político que vivemos à luz das imposições europeias. É que a cor política do governo de Portugal pode mudar mas a Europa continua a mesma de sempre. O artigo fala numa “mini-crise política” e no facto de poder – ou não – resultar numa nova crise económica.

Mais do que isso, faz-nos pensar com a calma que nos tem escapado no que representa esta novidade política de um governo socialista apoiado por PCP e Bloco de Esquerda. Diz o Matt O’Brien do Wonkblog que, apesar do sucesso do programa de ajustamento, a austeridade não acabou em Portugal. E não está para acabar tão cedo, porque a dívida pública ronda os 129% do PIB e o controlo fiscal do ponto de vista político pode ter já atingido o seu limite. (Não esquecer que a receita europeia também não está perto de mudar, mesmo após o episódio da crise grega e quase ruptura da União.)

O Wonkblog (do Washington Post) chama também a atenção para um pequeno mas crucial pormenor que nos tem escapado. É que enquanto António Costa anuncia que formará um governo que porá fim à austeridade, o que os socialistas defendem é apenas menos austeridade. Ora, PCP e Bloco de Esquerda não são assim tão amplos nas suas políticas.

On the one hand, Portugal’s Socialists aren’t against austerity in general, but rather against this much austerity. They want to spread spending cuts to protect their poorest people from losing too much too fast. But, on the other hand, the Socialists’ coalition partners want to reverse a lot of these cuts and restructure the country’s debt. That’s more or less the same platform that Greece’s at-one-time-radical Syriza Party tried to get Europe to acquiesce to, before ditching lest they be forced out of the euro. Would Portugal’s Socialists be able to avoid that kind of confrontation if they depended on the votes of people who wanted one? Who knows.

Com um sistema bancário dependente de empréstimos do Banco Central Europeu, Portugal tem de decidir se joga pelas regras europeias (que já são conhecidas, graças à Grécia) ou se prefere sair do jogo. Dito de outra forma, a austeridade ou o adeus à moeda única.

Portugal, in other words, has to decide whether it hates austerity more than it loves the euro. The two are inseparable. If you want to use Europe’s currency, then you have to play by Europe’s budget rules.

No election can change that.

Ficamos com a sensação de que de pouco servem as eleições ou a escolha de novos governos. Mas, de qualquer forma, os acontecimentos recentes já deixaram no ar essa ideia de que há sempre forma de contornar o voto popular.

O artigo na íntegra: Portugal might be the next stop in the euro crisis.

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Selfies na Copa

A moda das selfies tornou-se especialmente irritante quando o mundo do futebol se apropriou dela. Nada contra. Moda é moda.

Agora, jogadores, deviam ter posto a Ellen a gerir a vossa selfie presidencial. Se calhar ainda faziam uns trocos com publicidade a uma marca qualquer de smartphones. Pelo menos assim ganhavam alguma coisa na Copa…

De qualquer forma, não me queixo das selfies nem da sua entrada a pés juntos no universo da política. Cavaco Silva e Angela Merkel sempre são melhores que a brincadeira das vuvuzelas de há quatro anos. Estou só à espera da selfie Coentrão/Rui Patrício/Seguro.

Hashtag: “no banco”.

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A década perdida de Portugal

© David Ferreira

O Wall Street Journal fez ontem uma análise ao comportamento de Portugal nos últimos anos, a propósito de um novo relatório da Heritage Foundation. Chamou-lhe “Portugal’s Lost Decade“. Título pertinente para um texto que, sem nos trazer (a nós, portugueses) grandes novidades, mostra como os nossos problemas estruturais são percebidos (e bem) lá fora.

O passado: 

«Even before the global financial crisis took hold in 2008, Portugal had endured a miserable economic period. Far from catching up with the wealthier parts of Europe, it was falling further behind.» 

O presente:

«At some point, Portugal was going to have to grapple with its too-high wages and too-low productivity. But by waiting until the global recession forced the hard decisions, Portugal’s leaders hurt their chances for a successful adjustment.» 
O futuro?

«Growth returned to Portugal in 2013, but the country’s low productivity and budget woes are still unresolved. Most recently, the country’s highest court blocked an attempt to lower public-sector pay–exactly the type of reform that is necessary for Portugal to escape its decade-long slump.»