Napoli, ti voglio bene

Campi Flegrei. No sentido literal, uma terra em chamas. Ali perto, Nápoles (a cidade) é mais ponto de passagem para a costa e as ilhas do que destino final de tantos e tantos visitantes.

Foi o da viagem número dois. Uma cidade que é berço da pizza e pouco mais. Uma cidade que recebe e mastiga os turistas porque, afinal, também o faz com os locais. A eles, endurece-lhes a pele. Se lhes descobrem umas ruínas romanas nas bases das casas, não aceitam desertar.

A nós, quase nos repele – irremediavelmente, se decidirmos acordar noutro poiso na manhã seguinte. A Nápoles da pizza original (a da Sorbillo), dos cafés expresso tirados a ferver, dos Maradonas homenageados em cada esquina e dos presépios pintados à mão em centenas e centenas de peças.

A Nápoles dos pizzaiolos, das obras que parecem durar há anos, dos napolitanos franzinos mas enamorados.

A Nápoles da Spritz e dos homens que cantam a todo o momento, como se a vida napolitana custasse menos a viver por ser cantada.

A Nápoles dos altares, dos metros impossíveis de tomar e dos pedintes que se estendem pelas ruas, como há décadas já não se vê por cá.

A Nápoles do Vesúvio magistral, em constante pano de fundo. A Nápoles dos 414 degraus, de Sant’Elmo ao Bairro Espanhol. Essa Nápoles dos corajosos que correram, eles mesmos, com os nazis.

A Nápoles do manjericão plantado às portas de casa. A Nápoles dos limoncellos tragados em fins de tarde, em fins de praças cheias de gentes que não compreendem Nápoles.

A Nápoles dos vendedores de parmigiano, que encantam entre um tesoro e outro amore.

A Nápoles das saudades de quem tudo quer levar para partilhar em casa e a das saudades que deixa.

Napoli, you motherfucner*, és um osso duro de roer. Ma ti voglio bene.

Sevilla, 22 horas, 35 graus

Prado de San Sebastián. São dez da noite e até há pouco ainda caía sobre a cidade aquela luz brilhante que torna as cores vibrantes, causa de inveja da nossa Lisboa. Estão trinta e cinco graus na hora da partida.

Sevilla é assim. Os azuis e os amarelos rompem a atenção, o calor toma-se da energia que resta. As sangrias doces e os borrifos de água estrategicamente instalados nas esplanadas são motivo de pausa. Estamos em julho mas a semana é especialmente quente. Chega a chover, mas as pesadas gotas de água são quentes e não obrigam ao refúgio.

Quente é também o sangue dos bailarinos de flamenco cigano que se fazem esperar por duas horas, num pequeno palco da Triana. As gotas de suor pingam-lhes das caras e cabelos quando rodopiam em torno de si mesmos, parede vermelha a fazer de fundo.

Sevilla é um misto de antigo e contemporâneo. Respeita-se a tradição. A tradição do flamenco, dos leques, das loiças, das fachadas coloridas. Mas incorpora-se o moderno. O resultado está todo vertido na recepção, quando a primeira hora em Sevilla nos faz cruzar com um grupo de jovens cantores que juntam uma multidão na avenida.

Coge la guitarra hermano mío,
Coge la guitarra que hace mucho frío.

Sevilla também é um misto de culturas. As influências do norte de África traduzem-se nos imensos jardins de palmeiras altas, nas especiarias vendidas a granel nos mercados. E cruzam-se com a hora da siesta e com os espanhóis galanteadores.

A indústria do cinema e da televisão fez da cidade palco de produções como Star Wars e Game of Thrones. Estas portuguesas fizeram dela um retiro de bom viver, bom comer, bom passear. Porque tudo em Sevilla é muito muito.

Muitas tapas, muitas cañas. Pessoas de muita simpatia.

Muitos azulejos de tom marroquino. Muitos limoeiros a decorar as ruas com aquele cheiro fresco.

Muita vontade de voltar.