A gravata de Francisco Louçã

© Manuel Roberto/Público

Anda meio Portugal a trocar ideias sobre a gravata que Francisco Louçã envergou no Conselho de Estado desta quinta-feira. Azul, inédita, respeitadora dos protocolos.

Compreendo a estranheza. Afinal, esta gravata apareceu subitamente num homem que fez da ausência desse símbolo de poder (para alguns) que é a gravata a indumentária oficial do Bloco de Esquerda.  Não se aflijam: o Observador escreveu sobre a gravata de Louçã e consultou especialistas na matéria (consultores de moda, claro está) para explicar o caso.

Não pretendendo desvalorizar a dita gravata e muito menos o engravatado, gostava mais de saber o que pensamos, como sociedade, do financiamento com 7 milhões de euros que a Venezuela deu ao Podemos para ajudar à criação do partido de Pablo Iglesias.

Das salutares bofetadas prometidas pelo ministro da Cultura a Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente, também já muito se ouviu. Com grande indignação, como convém sempre vincar nestes casos incendiários das redes sociais. Eu cá preferia saber se todos os que comentaram as bofetadas estão a par do motivo da demissão de António Lamas do seu cargo no CCB e da actuação de João Soares em todo o processo.

E parece que Joana Vasconcelos, se fosse refugiada, levaria na sua mochila o iPad, o iPhone, as jóias, uns novelos de lã e mais umas traquitanas. Eu gostava mais de saber o que pensam os portugueses sobre a forma como a União Europeia está a receber e a responder à crise dos refugiados.

Não há paciência para redes sociais, que inflamam meras curiosidades do dia-a-dia. Claro que temos de estar atentos às gravatas que aparecem repentinamente em pescoços estranhos e às mochilas da Joana Vasconcelos e às malas das Pepas. (Salvaguarda para as bofetadas de João Soares, assunto mais sério no tema da asfixia democrática, mas altamente exagerado.) Mas não podemos deixar-nos encandear pela pequenez  destes assuntos quando comparados com temas verdadeiramente importantes para a nossa vida e para a nossa existência como sociedade, quais carros desvairados no escuro da noite a cegar-nos com os máximos.

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Expresso 2:59

259Expresso

A propósito da nova rubrica do Expresso Online, 2:59:

A ideia é excelente e acrescenta muito ao site do Expresso. Está um passo à frente dos Explicadores do Observador e parece que o público está a gostar. Cheira-me que 80% do sucesso está no facto de serem vídeos e nos efeitos sonoros e gráficos bonitinhos. O factor novidade também ajuda.

O fundo escuro dos vídeos torna a coisa um bocado sombria. As explicações podiam ser mais naturais, mas a naturalidade perde-se na tentativa de coordenar os gestos com os grafismos que vão ser colocados na edição. O que não acontece, por exemplo, no Vox.

O Vox, do Ezra Klein, é um dos projectos mais interessantes que surgiram no jornalismo recente. Um dos trabalhos mais giros que o Vox fez foi uma longa entrevista com o presidente dos Estados Unidos (com duas partes e uma série de vídeos). Os grafismos são surpreendentes e a forma como estão inseridos na edição, a coincidir com a naturalidade dos movimentos de Barack Obama, acrescenta sofisticação ao vídeo.

Na onda dos explicadores e do jornalismo de dados, o Vox também merece atenção.

O Expresso Online tem feito um esforço notório para usar ferramentas novas e modernas. A utilização das redes sociais (apesar de ser um pouco tosca, ou sou eu que não atino com o Snapchat) é meritória. O site é actualizado ao minuto e dá gosto ler alguns títulos de reportagens. Ainda há muito a fazer, mas o 2:59 parece ser já um sucesso. Que venham mais projectos como este (que, infelizmente, não disponibiliza os vídeos no YouTube).

Fica o link.

50 ways to leave your lover

 

Até ao fim do mundo

É hoje, 6ª-feira, dia 29 de janeiro de 2016, que saio do Observador. É hoje que me despeço de si, com lágrimas a correr pela cara. São lágrimas, sim, de orgulho, de amor. Este é o meu até já.
Rua Luz Soriano, nº 67. Data marcada: 10 de março de 2014. Eu, o Diogo Queiroz de Andrade e o José Manuel Fernandes trabalhámos meses a fio para pensar numa estrutura, no site, fazer um orçamento – realista, mas adequado à dimensão do desafio. Fomos procurar casa, encontrar os jornalistas certos, os que queríamos e os novos, depois de ouvirmos centenas, de recebermos milhares de currículos. Faz hoje quase dois anos que descemos as escadas e os fomos receber à porta.
Lembro-me do nervosismo, dos sorrisos, da ansiedade. Deles e nosso. Naquele ido mês de março, lançar um projeto de média era quase um ato de loucura e todos tínhamos ouvido o mesmo, até dos amigos a sério: não há espaço para vocês, o mercado está em crise, são juniores e inexperientes, a concorrência do ‘novo’ Expresso vai ser terrível.

O David Dinis escreveu hoje o seu último 360°. Cara do Observador, o David Dinis vai agora para a TSF. Lembrei-me da despedida do Pedro Santos Guerreiro do Negócios. Não passei pelo Observador nem pelo Negócios, mas tudo isto também é muito meu.

Hop on the bus, Gus
You don’t need to discuss much
Just drop off the key, Lee
And get yourself free