Cultura para todos (os que paguem)

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Diz hoje o Público que a colecção de Joe Berardo, exposta no Centro Cultural de Belém, passa a ter entrada paga a partir do próximo ano.

A exigência foi feita pelo Governo, via Ministério da Cultura. Parece que terá sido condição para que a colecção se mantenha onde tem estado, até 2022.

“Ao estado e ao governo não cabe escolher artistas nem ter uma política de gosto. Mas, é obrigação do estado tornar a Cultura acessível a todos”, dizia o actual primeiro-ministro em 2015.

Então se a Cultura é um dos pilares da política deste governo, como tem sido dito; e se deve ser acessível a todas as pessoas… Vamos passar a cobrar entrada para uma colecção que até agora era gratuita?

Se esta colecção já não gerava receitas, o que é que mudou para que agora tenha de passar a dar dinheiro para se manter?

A super lua baralhou a SIC

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Numa peça transmitida ontem, a propósito do início do julgamento num caso de abuso de menores, a SIC transcreveu algumas mensagens supostamente trocadas entre os alegados agressores.

Dizer que as redes sociais eram um recurso fundamental para que a rede de agressores funcionasse é essencial. Reproduzir as mensagens trocadas é desnecessário.

Como prova, estas mensagens devem ser indispensáveis para julgar o caso. Como informação noticiosa, parece-me que pouco acrescentam, a não ser aquele toque de sensacionalismo chocante que nos prende à notícia.

A escolha ainda é pior que os directos de ontem para ver a super lua.

Darker

Leonard Cohen

Leonard Cohen

Abri os olhos para desligar a música que toca como despertador.

Li a notificação. Fechei os olhos e pensei, “não”.

“Morreu Leonard Cohen”.

“Não”.

Ainda há poucas semanas, a New Yorker dizia que Leonard Cohen estava pronto para morrer. “I’ve got some work to do. Take care of business. I am ready to die. I hope it’s not too uncomfortable. That’s about it for me.”

Palavras do próprio, a propósito do lançamento do último disco (You Want it Darker) e em jeito de reflexão a olhar para trás, na vida. A sua Marianne tinha ido há alguns meses e escreveu-lhe:

“Well Marianne, it’s come to this time when we are really so old and our bodies are falling apart and I think I will follow you very soon. Know that I am so close behind you that if you stretch out your hand, I think you can reach mine. And you know that I’ve always loved you for your beauty and your wisdom, but I don’t need to say anything more about that because you know all about that. But now, I just want to wish you a very good journey. Goodbye old friend. Endless love, see you down the road.”

Conhecemos o disco e ouvimos a mesma despedida. Na faixa que dá título ao álbum, Cohen canta, naquela rouquidão arrasta: “Hineni, hineni, I’m ready, my Lord“. Hineni, no hebraico, “here I am”, em inglês.

Naquela entrevista de Outubro, à New Yorker, Cohen relatava que estava a organizar a vida. Tratar de assuntos, pôr tudo em ordem. Bastou-lhe um mês. Viu Bob Dylan ganhar o Nobel da Literatura, que muitos lhe haviam reservado. Viu ser lançado o seu último disco, em vida (deixou muito material para os próximos tempos). Viu o povo americano eleger Donald Trump como presidente. Despedidas feitas, vida organizada – “I’m ready, my Lord”.

Tudo em Cohen arrepia e a despedida não podia ser diferente.

Como também não foi diferente a despedida de David Bowie, ele que nos deu todos os sinais do que estava para vir.

Quando, em Dezembro, lançou “Lazarus“, não ouvimos. Estava lá escrito.

“Look up here, I’m in heaven
I’ve got scars that can’t be seen
(…) Oh I’ll be free
Just like that bluebird”

David Bowie preparou a própria morte, com canções que arrepiam a alma. Despediu-se quando o trabalho estava pronto. Chegou Janeiro e partiu para esse sítio de onde veio, que ninguém sabe bem qual é.

Aprendemos a lição e começámos a despedir-nos de Cohen há um mês, mas o tempo nunca chega e há tanta música por dar, tanta poesia por escrever, tanta gente por inspirar.

Bowie e Cohen não foram arrancados à vida. Como se conhecessem a Morte das intermitências de Saramago, fizeram um pacto com ela, para que os viesse buscar quando chegasse o momento.

Será só aos grandes que esse privilégio está reservado? Os maiores de todos os grandes podem fazer acordos com o divino, havendo, para decidir da data e hora finais, local também?

Construindo pontes

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Com os olhos do mundo empresarial postos em Lisboa, o senhor presidente da Câmara decidiu brilhar.

No último dia da Web Summit, apareceram pela cidade cartazes alusivos às presidenciais americanas e ao candidato eleito, Donald Trump.

Como alguém dizia, Fernando Medina não resistiu à politiquice. Quis fazer eco da contestação que se fez ouvir na conferência e lançou uma campanha dizendo que, cá por Lisboa, não se fazem muros, mas pontes.

Ora, além do fail do erro ortográfico (os cartazes foram para a rua com “brigdes” em vez de “bridges” e corrigidos posteriormente com um autocolante…), há toda uma oportunidade que se deixou passar. Uma daquelas que, como se diz, era ideal para ficar calado.

Uma das ideias da Web Summit era aproveitar para promover Lisboa. Os encantos naturais da cidade fizeram uma parte do trabalho. Os estrangeiros adoraram a noite lisboeta e renderam-se ao bom tempo. Comeram-se 97 mil pastéis de nata na Web Summit, por amor de Deus!

Mas a coisa não correu inteiramente bem. Primeiro, a desilusão que foi, para muitos, ficar à porta do MEO Arena com bilhete adquirido, por lotação esgotada do espaço. Depois, o fail dos transportes públicos – que mal funcionam para os lisboetas, quanto mais para os milhares que andaram por cá nestes dias.

Faltava só mesmo meter a política piadética ao barulho, aproveitando o tema quente para mandar uma boca. Em Lisboa, fazem-se pontes e não muros. Correu mal pela forma (um major facepalm, Fernando) e pelo conteúdo (há que fazer sempre pontes, com ou sem alguém em qualquer parte do mundo a prometer muros!).

Gerou-se aquela vergonha alheia de quem se sente português pequenino perante a tacanhez ocasional do nosso povo.