Todas as coisas maravilhosas

Amsterdam, 2014

“Número um: gelados.”

Uma criança começa a fazer uma lista de motivos para convencer a mãe a agarrar-se à vida. Coisas pelas quais vale a pena estar cá. “Número um: gelados.”

A lista acaba por acompanhar a vida daquela criança, passa pela sua adolescência, atravessa-lhe a vida adulta, a constituição da família, o desamor.

Julgo lembrar-me o suficiente da história criada por Duncan McMillan e representada em Portugal pelo Ivo Canelas. Como o “Blister in the Sun” a tocar bem alto numa acústica boa, esta peça foi um shot energético. Uma coisa maravilhosa.

Agora, não acho que vamos todos ficar bem. Há muitos que este vírus subtraiu  antes do tempo. Não é justo pensar que vamos todos ficar bem.

Mas devemo-lo a nós mesmos: ver as coisas maravilhosas.

“Gelados”, na voz pequena do miúdo que o Ivo Canelas escolheu no meio do público.

“O cabelo do Christopher Walken.”

“Marlon Brando.”

No meu isolamento, estas são todas as minhas coisas maravilhosas.

1. O cheiro a pão quente de que fala a Capicua.
2. Os ataques de riso a fazer pranchas durante os treinos online.
3. Reler todos os volumes de Harry Potter.
4. Ver musicais da Broadway no YouTube.
5. As listas automáticas do Spotify.
6. Fazer cursos online.

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