30 antes dos 30: Life of Brian

Life of Brian (1979)

Ainda no rescaldo do Natal, fechamos o ano com um dos melhores filmes de sempre, que se atira a um dos temas mais delicados de todos os tempos. Life of Brian é uma história sobre o fervor religioso e um marco político e histórico daquele ano de 1979.

Como reza a história, os seis Monty PythonGraham ChapmanJohn CleeseTerry GilliamEric IdleTerry Jones e Michael Palin – decidiram avançar com este projecto depois do sucesso de Holy Grail (1975). A ideia terá surgido entre copos, em Amesterdão, e foi sendo polida até chegar ao enredo como o conhecemos: o judeu Brian Cohen (Graham Chapman) tem o infortúnio de nascer no estábulo ao lado daquele onde Jesus Cristo vem ao mundo e, durante a sua vida, vai sendo confundido com o Messias. Ao descobrir que, afinal, é filho de um romano, rebela-se e trata de juntar-se a um dos grupos que buscam a abolição do Império, empreitada que o leva, ironicamente, a acabar pregado numa cruz. Terry Jones realizou, Chapman desempenhou o papel principal e os membros dos Monty Python foram rodando entre si os papéis dos diferentes quadros do filme, como se fossem sketches de um especial de comédia. Continue reading

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All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Capa de All Things Must Pass

Chovia e eu escolhia o meu Beatle preferido. Lembro-me sempre de trautear os primeiros acordes de “Here Comes the Sun” quando o tempo pede sofá e manta.

Sei que é contra-senso mas, também, todos preferem o Lennon ou o McCartney. Ou o Ringo porque tem o nome mais dado à fama que alguém alguma vez conseguiu inventar e nem aquele nariz lhe roubou seguidores. Se calhar é o preferido de alguém por causa do nariz e do ar tonto que lhe dá.

Chovia e o George Harrison havia composto a melhor música de amor dos últimos 50 anos. A opinião do Frank Sinatra é de confiar. É sempre bom confiar naqueles que se fazem acompanhar de um copo de Jack Daniel’s. Qualquer bebida torna as pessoas mais francas mas a preferência insistente por uma, em particular, é sinal de lealdade. Entre a sinceridade e a lealdade é que se está bem.

Foi o “quiet Beatle”. Desviou-se das atenções em que se banhavam os dois vocalistas. Concentrou-se na sua arte. Desenhou algumas das mais belas histórias para guitarras. Histórias, porque não se limitava a escrever uma série de acordes. Antes, preocupava-se com a sucessão entre eles, para dar sentido ao conjunto que cada linha fazia soar na guitarra. My guitar gently weeps… Ao fim de uns tempos, conseguiu que os Beatles gravassem as suas composições. Chegou a dar voz a versos da banda e é a sua que se ouve em “Do You Want to Know a Secret”.

Descobriu uma religião diferente e descobriu-se a si mesmo. Entre o hinduísmo e o psicadelismo, lá estava George Harrison. Quando os Beatles se afastaram, continuou a experimentar os sons que tinha dentro de si. Até que, algures nos anos 70, fez All Things Must Pass. A gravação do álbum (triplo) foi a sua estreia a solo definitiva.

Aposto que chovia. Sim, chovia como hoje e o George dava este título tão maravilhoso quanto premonitório ao disco. Claro que é um cliché mas é um daqueles que sempre repetimos para nós próprios, baixinho, para se fazer ouvir cá dentro. Também isto acabará por passar.

Fiquei a ouvir enquanto pensava que, realmente, tudo passa. Passa a turbulência que se estende por um ano inteiro. Passam as coisas boas e até um dia passam as memórias que delas ficam, quando já estamos demasiado distantes de tudo para nos lembrarmos de que dia é.

Hoje ainda é 25. E já é um ano depois de tudo se ter lançado numa daquelas espirais que os economistas sabem ler nos números. Eu, que não sou economista, nunca poderia ter previsto esta.

Mas o George diz que passa. E que o sol chega sempre depois de invernos que parecem durar anos a fio. E, afinal, ele é o meu Beatle preferido.