Boa memória

JN | 13/10/2016

JN | 13/10/2016

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Henrique Neto, O Estratega

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Escrevi um livro.

Escrevi a história de uma vida em tom político. Escrevi sobre um percurso que vale a pena conhecer.

A pretexto das presidenciais de 2016, Henrique Neto passou a ser conhecido de mais portugueses. Antes disso, sabia-se que era um dos mais fortes críticos de José Sócrates como primeiro-ministro, ele que até é militante do PS. Na indústria portuguesa, não só é conhecido como admirado.

Espero que este livro possa viver para lá das próximas eleições. Porque esta história de vida merece ser conhecida por muitos. Das origens humildes de uma família operária na Marinha Grande à militância comunista. Da ascensão a self-made man à construção de um império industrial português. Da proximidade a António Guterres ao mandato como deputado socialista. Das inúmeras cartas a Guterres, Sócrates, Jorge Sampaio e outros aos silêncios que quase sempre lhes sucediam. Das denúncias dos negócios ruinosos para o Estado à estratégia para o futuro de Portugal.

Perguntei-lhe várias vezes por que continua. O próprio partido não lhe dá ouvidos e trata-o como uma voz incómoda. Quando anunciou a sua candidatura, António Costa comentou a notícia com um mero “É-me indiferente”. Por que continua?

“Se o faz por espírito de missão ou por sentido de Estado, guarda‑o para si. Prefere falar em vaidade. Sim, há uma certa vaidade na visão estratégica que quer que Portugal siga, porque o tempo provou que as suas previsões estão, geralmente, correctas. E também aqui pode dar‑se o caso de ter razão. O mesmo tempo dotou‑o de alguma arrogância, mas não tem a veleidade de se achar acima de toda a verdade. A rectidão é uma das suas maiores conquistas. A frontalidade é uma inevitabilidade que lhe trouxe alguns dissabores.”

 

A carteira ou a vida: Portugal, a troika de esquerda e o Euro

© Partido Socialista/Flickr

© Partido Socialista/Flickr

O Wonkblog reflectiu hoje sobre o impasse político que vivemos à luz das imposições europeias. É que a cor política do governo de Portugal pode mudar mas a Europa continua a mesma de sempre. O artigo fala numa “mini-crise política” e no facto de poder – ou não – resultar numa nova crise económica.

Mais do que isso, faz-nos pensar com a calma que nos tem escapado no que representa esta novidade política de um governo socialista apoiado por PCP e Bloco de Esquerda. Diz o Matt O’Brien do Wonkblog que, apesar do sucesso do programa de ajustamento, a austeridade não acabou em Portugal. E não está para acabar tão cedo, porque a dívida pública ronda os 129% do PIB e o controlo fiscal do ponto de vista político pode ter já atingido o seu limite. (Não esquecer que a receita europeia também não está perto de mudar, mesmo após o episódio da crise grega e quase ruptura da União.)

O Wonkblog (do Washington Post) chama também a atenção para um pequeno mas crucial pormenor que nos tem escapado. É que enquanto António Costa anuncia que formará um governo que porá fim à austeridade, o que os socialistas defendem é apenas menos austeridade. Ora, PCP e Bloco de Esquerda não são assim tão amplos nas suas políticas.

On the one hand, Portugal’s Socialists aren’t against austerity in general, but rather against this much austerity. They want to spread spending cuts to protect their poorest people from losing too much too fast. But, on the other hand, the Socialists’ coalition partners want to reverse a lot of these cuts and restructure the country’s debt. That’s more or less the same platform that Greece’s at-one-time-radical Syriza Party tried to get Europe to acquiesce to, before ditching lest they be forced out of the euro. Would Portugal’s Socialists be able to avoid that kind of confrontation if they depended on the votes of people who wanted one? Who knows.

Com um sistema bancário dependente de empréstimos do Banco Central Europeu, Portugal tem de decidir se joga pelas regras europeias (que já são conhecidas, graças à Grécia) ou se prefere sair do jogo. Dito de outra forma, a austeridade ou o adeus à moeda única.

Portugal, in other words, has to decide whether it hates austerity more than it loves the euro. The two are inseparable. If you want to use Europe’s currency, then you have to play by Europe’s budget rules.

No election can change that.

Ficamos com a sensação de que de pouco servem as eleições ou a escolha de novos governos. Mas, de qualquer forma, os acontecimentos recentes já deixaram no ar essa ideia de que há sempre forma de contornar o voto popular.

O artigo na íntegra: Portugal might be the next stop in the euro crisis.