Coerência

[Falemos um pouco das promessas. Ou já não há promessas nos tempos que correm?]
Compromissos. A terminologia é muito importante. A direita faz promessas. Nós estabelecemos compromissos.
António Costa, Visão, Agosto 2015

Quem não gosta de uma boa incoerência?

Sapos democráticos

© Filipa Moreno

© Filipa Moreno

(Faço já o disclaimer, para amainar leituras potencialmente agressivas das seguintes constatações. Não sou nem de um partido de esquerda, nem de um partido de direita. Aqui vai.)

O pessoal de esquerda ficou muito contente porque voltarmos a ter um ministério da Cultura. Não devem ter gostado muito que, com este ministério, o orçamento para a cultura, em 2016, seja inferior ao do ano passado, quando a pasta estava a cargo de uma secretaria de Estado.

Pior. A malta de esquerda não deve ter gostado muito de ver contrapostas a liberdade de expressão de dois cronistas (Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente) e a demissão do ministro João Soares. Ministro da Cultura, imagine-se. Coitados.

Pior ainda. A malta de esquerda não deve ter gostado muito de ver um apelo, em sentido contrário à liberdade de expressão, plasmado num dos editoriais do Público (“Cala-te, Sócrates”).

Dá para ser pior que isto? Dá, sim senhor. Quem é que apontou a incoerência de um jornal pedir menos liberdade de expressão a uma figura (pública, em investigação…)? Pedro Passos Coelho.

Este ano está a ser duro para a esquerda. O que torna mais fácil engolir estes sapos? Cá para mim, a coerência. Não adianta defender alguém ou alguma coisa com unhas e dentes, quando erram. Insistir no erro só torna as situações um pouco mais penosas. (Ainda que seja algo divertido ver.) Mais vale reconhecer, com distância e imparcialidade, e seguir em frente, tomando um pouco da humildade democrática de que os políticas tantas vezes falam.

Assim mesmo. Que um “democrático(a)” em frente de cada recomendação torna as reprimendas menos vexatórias.

Holidays on film

Vila Nova de Milfontes, Esposende e uns quantos sítios aqui perto, em fotos das férias, reveladas um ano depois. Porque já cheira a Verão outra vez.

Um ano depois.

© Filipa Moreno w/ Olympus OM-10

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A gravata de Francisco Louçã

© Manuel Roberto/Público

Anda meio Portugal a trocar ideias sobre a gravata que Francisco Louçã envergou no Conselho de Estado desta quinta-feira. Azul, inédita, respeitadora dos protocolos.

Compreendo a estranheza. Afinal, esta gravata apareceu subitamente num homem que fez da ausência desse símbolo de poder (para alguns) que é a gravata a indumentária oficial do Bloco de Esquerda.  Não se aflijam: o Observador escreveu sobre a gravata de Louçã e consultou especialistas na matéria (consultores de moda, claro está) para explicar o caso.

Não pretendendo desvalorizar a dita gravata e muito menos o engravatado, gostava mais de saber o que pensamos, como sociedade, do financiamento com 7 milhões de euros que a Venezuela deu ao Podemos para ajudar à criação do partido de Pablo Iglesias.

Das salutares bofetadas prometidas pelo ministro da Cultura a Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente, também já muito se ouviu. Com grande indignação, como convém sempre vincar nestes casos incendiários das redes sociais. Eu cá preferia saber se todos os que comentaram as bofetadas estão a par do motivo da demissão de António Lamas do seu cargo no CCB e da actuação de João Soares em todo o processo.

E parece que Joana Vasconcelos, se fosse refugiada, levaria na sua mochila o iPad, o iPhone, as jóias, uns novelos de lã e mais umas traquitanas. Eu gostava mais de saber o que pensam os portugueses sobre a forma como a União Europeia está a receber e a responder à crise dos refugiados.

Não há paciência para redes sociais, que inflamam meras curiosidades do dia-a-dia. Claro que temos de estar atentos às gravatas que aparecem repentinamente em pescoços estranhos e às mochilas da Joana Vasconcelos e às malas das Pepas. (Salvaguarda para as bofetadas de João Soares, assunto mais sério no tema da asfixia democrática, mas altamente exagerado.) Mas não podemos deixar-nos encandear pela pequenez  destes assuntos quando comparados com temas verdadeiramente importantes para a nossa vida e para a nossa existência como sociedade, quais carros desvairados no escuro da noite a cegar-nos com os máximos.