Tim Bernardes

Esta voz e esta maneira de cantar. Tim Bernardes é o melhor artista que conheci nos últimos tempos e está em Portugal a dar concertos. Aproveitou para gravar umas coisinhas com os Capitão Fausto e o Salvador Sobral. Já só falta o Samuel Úria.

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30 antes do 30: Manhattan

Manhattan. Woody Allen (1979)

Para ele, a morte é uma fatídica inevitabilidade que nos deve encher de angústia. Para os millennials, a angústia é conhecer a obra de Woody Allen a começar pelo fim. Manhattan (1979) foi, com Annie Hall (1977), um dos primeiros grandes filmes do realizador, mas a constante reinvenção da mesma história, ao longo de anos, retirou-lhe a surpresa. O brilho está lá, assim como as suas marcas clássicas. Mas já vimos este filme demasiadas vezes.

A lista de 30 filmes para ver antes dos 30 só incluía, à partida, um título de Woody Allen. Agora que foi alargada, para incluir as sugestões de críticos de cinema e publicações de renome, o realizador figura com mais duas obras. Esta semana, o filme escolhido deveria ser Annie Hall. Mas aquele que, como dizem, foi o primeiro grande título de Woody Allen não surpreendeu. E, porque todos gostamos de Woody Allen, no seu jeito neurótico e filosófico de contar a vida, parti de imediato para Manhattan, sem tempo para digerir a desilusão. E então, com este filme a preto e branco, fez-se luz na origem do desencanto: os primeiros filmes de Allen foram o ponto de partida de uma longa corrida que ele começou a caminhar (da mesma maneira desengonçada com que passeia os ombros magros numa tshirt coçada, pelas ruas de Nova Iorque).

É que o Woody Allen que conhecemos (os da minha geração) é o de Match Point (2005) e Vicky Cristina Barcelona (2008). Se é certo que o universo é o mesmo, as personagens e histórias que o habitam amadureceram e os cenários lançaram-se numa digressão mundial por outras geografias, depois de esgotar Nova Iorque como pano de fundo.

Manhattan apresenta-nos Isaac Davis (Woody Allen, quem mais?), humorista nova-iorquino, de origem judaica, que mantém uma relação com Tracy (Mariel Hemingway, neta desse Hemingway, sim…). Ele tem 42 anos, ela tem 17. Yale (Michael Murphy) é o amigo e confidente do protagonista, a quem confessa ter um caso com Mary (Diane Keaton), que se tornará objecto da atenção de Isaac. Agora, o enredo que daria todo um outro filme: Isaac fala repetidamente da sua ex-mulher, Jill (Meryl Streep), uma relação que falhou porque ela o trocou por outra mulher e agora está a escrever um livro sobre a relação do casal. A perspectiva de ter a sua vida privada e íntima exposta ao público é fonte de ansiedade para Isaac.

Este cenário é apenas um dos remates cómicos do guião de Woody Allen e, como em tantas outras cenas escritas por ele naqueles primeiros anos, parece ter inspirado outros quadros de humor (a história de Ross, sobretudo no início de Friends, é este mesmo trauma).

O que faz de Manhattan um grande filme cómico é a descontração com que estes momentos nos apanham de surpresa. Não falamos, claro, das referências à virilidade de Isaac – até porque, como também faz em Annie Hall, Woody Allen apaga sempre a luz dos momentos em que se pré-anuncia um sedutor nato. Falamos, por exemplo, do encontro imprevisto de Mary com o ex-marido. Ela descrevera Jeremiah como um homem arrebatador. Quando se encontram no ecrã, Jeremiah é interpretado por Wallace Shawn, figura que não casa com a descrição, como sugere o realizador. O efeito cómico está lá, mas será suficiente para aguentar o filme?

Rimo-nos ainda das falas de Isaac sobre a sua origem judaica. Mas este tema repete-se e é quase um trauma do protagonista. (Talvez as referências sexuais também o sejam e nem vale a pena lembrar paralelos entre a relação fictícia com Tracy e a realidade…)

A inevitabilidade da morte como algo pesaroso e doloroso também está em Manhattan. “I don’t think you should take Valium. It causes cancer.”

O centro da história é, claro, o encanto de Isaac por Mary, que se torna em relacionamento para depressa deixar de o ser. A sinopse é, de facto, muito curta – basta dizer que é mais uma relação disfuncional narrada por Woody Allen, em que tanto ele como ela se apercebem de que querem coisas diferentes.

O que é que distingue Manhattan de tudo o que lhe sucedeu?

Manhattan tem a cidade como pano de fundo, sim. Aqui, vemo-la a preto e branco, com a luz a empurrar a sombra para os arranha-céus e a conquistar espaço sobre a ponte, na famosa cena no banco diante do rio. A cinematografia é muito cuidada e foi obra de Gordon Willis. Vale a pena lembrar a cena em que Mary e Isaac se refugiam da chuva no planetário e o espaço presta-se a uma conversa mais próxima entre as duas personagens que acabam de se conhecer.

(Isaac: “You were soaking wet from the rain and I had a mad impulse to throw you down on the lunar surface, and commit interstellar perversion with you.”)

É verdade que gostaríamos de ver mais de Meryl Streep, com o seu longo cabelo loiro, mas contentamo-nos com a genuinidade de Mariel Hemingway e a sua Tracy, a adolescente deslumbrante, inebriada com os encantos de Isaac, que se revela mais madura do que todos os adultos da história.

E, por fim, a música. Manhattan é uma cidade pintada ao som de Gershwin, logo com “Rhapsody in Blue”. O filme abre justamente com a declaração de amor de Woody Allen, com sotaque local: “He adored New York City. He idolized it all out of proportion”. Não podia haver melhor match para o passeio de Isaac, Mary e o seu daschund, a meio da noite.

(Isaac: “What kind of dog you got?”

Mary: “The worst. It’s a dachshund. You know, it’s a penis substitute for me.”)

O amor à cidade, as relações disfuncionais e a comicidade súbita de um ser profundamente mergulhado na sua neurose de estimação impedem-nos de apreciar Manhattan em toda a sua glória, neste ano de 2019. Uma lástima, uma angústia não ter conhecido a filmografia de Woody Allen na ordem certa.

Ou talvez o problema não seja cronológico. Em Manhattan, Mary confessa que, apesar do fascínio antigo por Kierkegaard, o leitor cresce e deixa essa admiração para trás.

“I loved it when I was at Radcliffe, but, all right, you outgrow it.”

Não deixa de ser irónico ter chegado ao início de Woody Allen com um amargo de boca, de quem percebe que as comédias simples e impregnadas de filosofia rápida satisfazem mas não chegam. Mais ainda, porque a idade está a acompanhar o avanço numa lista onde estão alguns dos melhores filmes já feitos e Woody Allen está a perder terreno para outros realizadores e argumentistas portentosos, mesmo no campo das histórias simples.

A filosofia de Woody Allen, pelo menos, continua certeira e, a julgar pelo trailer do seu novo filme, está mais afiada do que em Manhattan. Como diz em Annie Hall, “life is full of misery, loneliness, and suffering. And it’s all over much too soon”.

Manhattan. Woody Allen (1979)

Artigo publicado também em Sapo Mag

30 antes dos 30: Citizen Kane

Orson Welles em Citizen Kane (1941)

Quando Martin Scorsese diz que Orson Welles abriu a caixa de Pandora do cinema, fá-lo com uma manifesta admiração no olhar. Essa reverência é partilhada entre os seus pares. É que, em 1941, Citizen Kane inaugurou uma nova era e fê-lo de forma tão perfeita quanto definitiva. Em causa estavam a forma e o conteúdo daquele filme, embrulhados no olhar revolucionário de um jovem génio e entregue aos espectadores através daquela que se tornou a sua obra-prima. Continue reading

30 antes dos 30: mais filmes, menos anos

The Grand Budapest Hotel

É hábito da nossa civilização organizar tudo em listas. Das listas das compras às listas de melhores do ano. São músicas, álbuns, filmes, livros… São listas de compras e bucket lists.

Quando criei a lista dos 30 antes dos 30, parti de Scorsese e reuni recomendações de cinéfilos amigos. Mas o mundo do cinema é muito grande e as recomendações multiplicam-se. Algumas coincidem e são incontornáveis, outras são menos óbvias.

Todas têm lugar neste espaço. Das sugestões dos youtubers, que se dedicam a fazer reviews, às grandes colectâneas, como a dos 100 melhores filmes para os leitores da BBC. Das obras que deviam ser mostradas nas escolas às escolhas dos críticos, passando pelas sugestões de alguns realizadores (Spike Lee, Jim Jarmusch, Woody Allen, Akiro Kurosawa…). Das reviews do Roger Ebert às referências do Robert McKee na bíblia que é o Story. Sem esquecer aquela sugestão do Pedro Mexia que se ouve na rádio ou as dicas que o Nuno Markl vai lançado nas redes.

A lista foi actualizada e está aqui.

30 antes dos 30: 2001: A Space Odyssey

2001: A Space Odyssey. Stanley Kubrick (1968)

This is Major Tom to Ground Control
I’m stepping through the door
And I’m floating in a most peculiar way
And the stars look very different today

Roger Ebert disse que 2001: A Space Odyssey lhe provocou arrepios e que nenhum crítico de cinema deveria alguma vez proferir afirmação tão pirosa. A obra prima de Stanley Kubrick prestou-se a inúmeras leituras e, ainda hoje, o seu significado é uma incógnita para os que não deixam de fazer perguntas. Entre as poucas certezas, uma resistiu a estes 51 anos: foi aqui que se fundou a era moderna da ficção científica no cinema. Foi aqui que o espectador passou a sonhar com o que está para lá do visível e com o que é possível nessa grande odisseia das viagens espaciais. Conseguir fazê-lo no ano de 1968 é mais do que suficiente para provocar arrepios. Continue reading