As 15 melhores músicas de 2018

Janelle Monáe | Make Me Feel

A melhor música nova do ano, em 15 faixas, podia incluir Franz Ferdinand (com “Always Ascending”), Thom Yorke (“Suspirium”) ou Jessie Ware (“Overtime”). Teria de falar de Beyoncé, mas o álbum novo é feito com Jay Z e ela brilha mais sozinha do que nas colaborações sintetizadas com o marido. Nenhum destes se qualificou.

Na música cantada em português, Tim Bernardes podia entrar mas o seu disco é de 2017. Conan Osíris também não entra no critério (editou Adoro Bolos mesmo no final do ano passado), mas merecia, mais do que um lugar entre as melhores músicas o título de personalidade do ano 2018, pela curiosidade que conseguiu gerar. Os Capitão Fausto já lançaram o primeiro single do que disco novo, mas não soa a novo. Menções honrosas para Medeiros/Lucas e Ricardo Toscano, que podiam muito bem entrar aqui, nesta lista de melhores músicas de 2018 que tem, em primeiro lugar, algo que não é uma só música e não é de 2018.

15. “Deus Me dê Grana” | Dead Combo
“Deus Me Dê Grana” é uma música clássica de Dead Combo, talvez mais musculada e madura. É também o avanço do longa duração deste ano, Odeon Hotel.
Os Dead Combo preencheram assim a quota de hotéis desta lista. É que apesar de ter havido esforço para falar de Tranquility Base Hotel & Casino, nenhuma das faixas novas dos Arctic Monkeys estiveram à altura da compilação, para gáudio dos haters. Não foi intencional.

14. “Happy Man” | Jungle
Havia muita expectativa em torno do regresso dos Jungle. Foram precisos quatro anos para a banda fechar o sucessor do disco homónimo e 2018 lá trouxe For Ever. “Happy Man” é perfeita como single e não desilude ao vivo, sendo antes um verdadeiro call to action.

13. “Tell Me Something I Don’t Know” | David Fonseca
David Fonseca surpreendeu quem o quis ouvir, ao lançar Radio Gemini, este ano. O disco é mais uma prova de que o músico português consegue sempre reinventar-se, a cada novo trabalho. Mais do que mudar a forma, desta vez, David Fonseca inovou também no conteúdo ao apresentar um alinhamento que roça em tantos géneros diferentes. Além da pop habitual, há uma quase electrónica, laivos de funk, marcas de rap e – pasme-se! – um pouco de reggae. Mas tudo isto soa a David Fonseca, por estranho que pareça.
“Tell Me Something I Don’t Know” é uma música r&b, que aqui vem representar a diversidade deste disco (e que não chega a ser esquizofrenia, calma).

12. “This is America” | Childish Gambino
A crítica social amplificou o impacto de “This is America”. É sempre importante dar ouvidos a crónicas dos nossos tempos, que põem o dedo na ferida. “This is America” faz isso, ao relatar problemas com que os Estados Unidos da América se debatem diariamente, mas vai além disso. É uma música, no seu verdadeiro sentido, daquelas que ficam no ouvido e que não saltamos no shuffle do Spotify. Claro que o videoclip também ajudou a catapultar a música, com que Childish Gambino (alterego de Donald Glover) marcou este 2018.

11. “Beyond” | Leon Bridges
Já se sabia que Leon Bridges é um rapaz cheio de soul. Em 2018, voltou com o disco Good Thing – coisa boa. “Bad Bad News” funciona como single, mas “Beyond” mostra o lado mais sossegado de Leon Bridges e permite-lhe brilhar só com o poder da voz. E os primeiros acordes fazem lembrar “Into the Mystic” de Van Morrison, por isso, é indicada para românticos.

10. “Shallow” | Lady Gaga
Se “Shallow” vai ganhar prémios como música do ano, isso se verá. Para já, ocupa aqui o lugar pop da lista. Trata-se do tema principal do filme “A Star is Born”, é interpretada por Lady Gaga e Bradley Cooper e foi feita pela cantora e pelo produtor Mark Ronson. É, acima de tudo, uma balada bem feita e aguenta-se à snobeira dos que acharem que é demasiado pop para listas destas.

9. “I Dance Like This” | David Byrne
Uma música que começa com uma pianada a embalar-nos, sendo de David Byrne, só podia ter surpresa lá no meio. O regresso de um dos maiores de sempre aconteceu este ano, com o disco American Utopia, que pôs na estrada o cérebro dos Talking Heads. “I Dance Like This” é a forma de David Byrne nos dizer que ainda não acabou, que ainda tem muito para dançar por aí (não se cansou nos 80s?!).
A música soa a clássico de David Byrne e não destoou do alinhamento dos concertos que o músico deu em 2018.

8. “Come on to Me” | Paul McCartney
Como David Byrne, Paul McCartney não está cansado de fazer música e é isso mesmo que provou com “Come on to Me”, do álbum Egypt Station, lançado em setembro.
A fórmula não é propriamente nova – ele já explicou como se faz música à Beatles antes e, no documentário Sound City (2013), vemo-lo a ensinar Dave Grohl a pôr os coros no sítio certo – mas há algo de fresco. Paul McCartney sabe embarcar nas novas estratégias para fazer chegar a sua música ao público e, por isso mesmo, estreou “Come on to Me” no Carpool Karaoke do programa de James Corden.

 7. “Heaven Up There” | Palace
O segredo mais bem guardado desta lista é a banda britânica Palace. Com alguns EP’s e o disco So Long Forever (2016) no currículo, os Palace estavam em dívida de música nova desde que os conhecemos. Havia o receio de que o síndrome do segundo álbum fosse interromper um percurso brilhante, mas, a julgar pelo primeiro single, não vai ser o caso.
“Heaven Up There” é uma música feita na continuidade e ainda bem porque, se for para estragar, nem vale a pena mexer. Ainda não mata a sede, mas vai entretendo até que chegue o novo trabalho.

6. “Fusão” | Samuel Úria
Bem-aventurado é o ano em que há música nova de Samuel Úria. Este só teve direito a quatro, mas estávamos com muita falta. Qualquer uma delas podia estar aqui a representar o EP “Marcha Atroz”, mas ficou “Fusão” por ser a mais mexida.
Recomenda-se ainda “Mãos”, que tem vídeo bonito a condizer. Foi você que pediu um blues?

5. “Nobody Gets What They Want Anymore” | Marlon Williams
Este single foi lançado em 2017, mas está no álbum Make Way for Love, de 2018. A obra brilhante de Marlon Williams parece dar razão aos entendidos, quando dizem que a arte nasce da dor. Fala-se do fim da sua relação com Aldous Harding, com quem, ainda por cima, grava “Nobody Gets What They Want Anymore”.
Marlon Williams acabou por roubar o lugar de melhor faixa melancólico-abstrata, que estava reservado para “Forever Changeless” de Nils Frahm.

4. “Mano a Mano” | Salvador Sobral
“Mano a Mano” é a música mais bonita de 2018. A letra brilhante é de Maria do Rosário Pedreira e a música é de Júlio Resende (que também tem disco novo este ano). A voz de Salvador Sobral cumpre o propósito de fazer valer as palavras de “Mano a Mano”, música lançada avulso.
“Só nos resta o mano a mano, se não queremos ficar sós. Deixa lá o teu piano namorar a minha voz.”

3. “Make Me Feel” | Janelle Monáe
“Make Me Feel” soa a Prince e Janelle Monáe é uma rapariga que percebe umas coisas de ícones, ela que foi convidou Brian Wilson para a faixa título do álbum de 2018, Dirty Computer. Além disso, no vídeo deste single até dá uns passinhos de dança à Michael Jackson.
O álbum dá a conhecer uma artista ainda mais completa do que Janelle Monáe já tinha provado ser. É quase como se reapresentasse ao público, agora uma espécie de Beyoncé in the making, mas a puxar mais ao funk do que ao hip hop. (Vejam o vídeo, a sério.) Ainda por cima, parece fazer toda esta música sem grande dificuldade ou esforço, como se estivesse ao alcance de qualquer um.

2. “It Runs Through Me” | Tom Misch
Com 23 anos, Tom Misch foi capaz de apresentar um dos melhores discos de 2018. Está aqui “It Runs Through Me”, como também podiam estar “Beautiful Escape”, “Movie” ou “Lost in Paris” – todas do disco Geography. Não é que precisasse de companhia, mas fez “It Runs Through Me” com os De La Soul.
Tom Misch é um misto de música dançável, jazz e soul. O resultado é um festival de boa onda em cada música e cada concerto. Como um daqueles shots de gengibre.­­­­­­

1. THE BEATLES/THE WHITE ALBUM
O número um das melhores músicas de 2018 não é uma música e não é de 2018. Os critérios são escolha da casa e decidiu-se que reedições contam. Por isso, o que de melhor este ano nos trouxe foi a reedição do álbum branco dos The Beatles, de 1968, que traz nada menos do que sete discos.
Estão lá as faixas do alinhamento original; as Esher demos, gravações inéditas de preparação para o álbum feitas em casa de George Harrison, e onde os especialistas dizem não se encontrar qualquer sinal da tensão que viria a marcar a construção do White Album; e uma série de outtakes com versões diferentes das que viriam a ser gravadas e conversas entre a banda e a equipa.
Se for mesmo preciso apontar uma música, é “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, por ser mal-amada e porque já aprendemos que até nas mais canções mais silly dos The Beatles há mestria de qualquer género. Podia ser também “Blackbird”, porque é das mais bonitas da banda. Ou “Helter Skelter”, porque até uma música feita só para não ficar atrás do que outras bandas andavam a experimentar acabou por dar origem a todo um novo género. (Paul McCartney explica aqui a influência da música no heavy metal). Podia estar ainda “While My Guitar Gently Weeps”, só porque é do George.

Artigo publicado também em Look Mag

 

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