“A new normal”

© AFP/Valery Hache

© AFP/Valery Hache

13 de Novembro de 2015. Começam a surgir notificações no ecrã do telemóvel, que consulto discretamente para não interromper o concerto. Tocam os Atomic, banda de noruegueses e suecos que se apresenta em Portugal. O espaço é muito pequeno e fica de imediato dominado pelas notícias. Há, em Paris, um sequestro na sala de espectáculos Bataclan, durante o concerto dos Eagles of Death Metal. Tiroteios e explosões noutros pontos da cidade. No Stade de France e junto ao Le Carrillon. Já são mais de dez as notificações que se acumulam em poucos minutos. Morrem 130 pessoas.

14 de Julho de 2016. Os Disclosure tiveram um crash em palco, pouco depois de começar o concerto. Qualquer falha técnica. Há um compasso de espera entre o concerto dos The National e o regresso ao palco da dupla britânica. Atentado em Nice. Um camião interrompe os festejos do Dia da Bastilha, em Nice, quando atropela e arrasta durante dois quilómetros dezenas de pessoas. Morrem 84 pessoas.

18 de Julho de 2016. Primeiro dia de férias, com a praia e a piscina pela frente. Bebo um gin tónico quando caem as primeiras notícias: ataque a bordo de um comboio que atravessa a Baviera. Um rapaz de 17 anos atinge com um machado mais de 20 pessoas.

22 de Julho de 2016. A TSF noticia “caos em Munique”. Há “vários tiroteios” e “notícias de mortos e feridos”. As notificações são pouco precisas durante toda a tarde e noite quanto ao número de vítimas. Parece que quanto menor for, menos impacto terá o novo atentado. Aqui o ambiente é de festa. De festival, o Milhões de Festa. Em Munique, um rapaz de 18 anos dispara num centro comercial. Mata 10 pessoas.

O Wall Street Journal resume os acontecimentos.

In less than two weeks, Western Europe has witnessed the calm of everyday life repeatedly shattered by high-profile, indiscriminate acts of savagery, raising the sense that violence is becoming a new normal.

A pacatez desta vida normal – europeia, ocidentalizada, privilegiada – contrasta com o “new normal”. “Não andes por sítios perigosos”. Todos os sítios passaram a ser perigosos quando o terror elege como alvos os públicos de concertos, os cidadãos que passeiam pelas ruas das cidades, os frequentadores de centros comerciais. Seja o terror das lutas fundamentalistas ou das perturbações mentais.

Este sabor amargo na boca é agora habitual, pelo menos até que a banalização da violência extrema retire o choque às notícias.

E a vida pacata vai continuando a ser vivida, com a preocupação de quem tenta não pisar uma mina num campo armadilhado. Ou, no caso da Europa de hoje, com a sorte de quem tenta não estar no lugar errado, à hora errada.

Sevilla, 22 horas, 35 graus

Prado de San Sebastián. São dez da noite e até há pouco ainda caía sobre a cidade aquela luz brilhante que torna as cores vibrantes, causa de inveja da nossa Lisboa. Estão trinta e cinco graus na hora da partida.

Sevilla é assim. Os azuis e os amarelos rompem a atenção, o calor toma-se da energia que resta. As sangrias doces e os borrifos de água estrategicamente instalados nas esplanadas são motivo de pausa. Estamos em julho mas a semana é especialmente quente. Chega a chover, mas as pesadas gotas de água são quentes e não obrigam ao refúgio.

Quente é também o sangue dos bailarinos de flamenco cigano que se fazem esperar por duas horas, num pequeno palco da Triana. As gotas de suor pingam-lhes das caras e cabelos quando rodopiam em torno de si mesmos, parede vermelha a fazer de fundo.

Sevilla é um misto de antigo e contemporâneo. Respeita-se a tradição. A tradição do flamenco, dos leques, das loiças, das fachadas coloridas. Mas incorpora-se o moderno. O resultado está todo vertido na recepção, quando a primeira hora em Sevilla nos faz cruzar com um grupo de jovens cantores que juntam uma multidão na avenida.

Coge la guitarra hermano mío,
Coge la guitarra que hace mucho frío.

Sevilla também é um misto de culturas. As influências do norte de África traduzem-se nos imensos jardins de palmeiras altas, nas especiarias vendidas a granel nos mercados. E cruzam-se com a hora da siesta e com os espanhóis galanteadores.

A indústria do cinema e da televisão fez da cidade palco de produções como Star Wars e Game of Thrones. Estas portuguesas fizeram dela um retiro de bom viver, bom comer, bom passear. Porque tudo em Sevilla é muito muito.

Muitas tapas, muitas cañas. Pessoas de muita simpatia.

Muitos azulejos de tom marroquino. Muitos limoeiros a decorar as ruas com aquele cheiro fresco.

Muita vontade de voltar.

Should I stay or should I go

Faltam poucos dias para os cidadãos do Reino Unido decidirem o futuro do país na União Europeia.

Depois do homicídio brutal da deputada do Labour Party, Jo Cox, que defendia a permanência, o “sim” perdeu margem nas sondagens que antes liderava. As notícias mais recentes dão conta de um empate técnico.

As notícias dão também conta das razões para que o Reino Unido não abandone a União Europeia.

Há os motivos financeiros e económicos. Os mercados já tremem. Pior seriam os efeitos nas bolsas mundiais se o Reino Unido deixasse mesmo de fazer parte do grupo dos 28. E quanto tempo (traduzido em prejuízos) demoraria até o Reino Unido reestruturar as suas relações comerciais com a Europa? Seria possível evitar a recessão?

Há vários motivos políticos, desde logo com a possível discórdia da Escócia. A decisão pelo “sim” poderia recuperar a vontade independentista escocesa, dado que a Escócia é a favor da integração europeia.

Há os motivos sociais, sobretudo a situação dos emigrantes europeus que residem no Reino Unido e as políticas sociais a que poderiam estar sujeitos.

Há os motivos de poder político, que o primeiro-ministro britânico resumiu, este sábado, no Telegraph, como a ausência do Reino Unido da tomada de decisões cruciais sobre temas como o combate ao terrorismo. David Cameron alertou ainda, em tom ameaçador: “There is no turning back if we leave. If we choose to go out of the EU, we will go out – with all of the consequences that will have for everyone in Britain. And if we were to leave and it quickly turned out to be a big mistake, there wouldn’t be a way of changing our minds and having another go. This is it.” Compreendo o tom do primeiro-ministro britânico e admiro os seus nervos de aço. Afinal, é o segundo referendo crucial que enfrenta no mandato e depois de ter-se esfalfado para negociar aquelas condições especiais de que o Reino Unido passou a beneficiar, diferenciando-se de todos os restantes 27 países da União Europeia.

Mas pergunto-me se é a pressão psicológica das sondagens que alimenta o medo que faz com que os líderes europeus repitam sucessivamente estes argumentos. Chamem-me idealista, mas gostava de os ouvir puxar mais pelos motivos que levaram o Reino Unido a aderir à União Europeia, do que pelos efeitos do seu eventual abandono.

O idealismo parece ter-se esfumado perante o medo. Mas não foi o idealismo uma resposta ao medo? Winston Churchill idealizou uma União Europeia que, saída da Segunda Guerra Mundial, pudesse trazer felicidade e paz a todo o continente.

No seu discurso de Zurique, em 1946, claro que apelou à memória fresca da guerra lembrando os perigos da tirania, que a Europa ainda podia ver ressurgirem. (“If Europe is to be saved from infinite misery, and indeed from final doom, there must be an act of faith in the European family and an act of oblivion against all the crimes and follies of the past.”) Mas o espírito de união estava lá. As expectativas de Churchill e de tantos outros podem ter sido goradas. (“And why should there not be a European group which could give a sense of enlarged patriotism and common citizenship to the distracted peoples of this turbulent and mighty continent and why should it not take its rightful place with other great groupings in shaping the destinies of men?”) A União Europeia como projecto político não corresponde ao que se sonhou. Mas a estrutura está criada e os ideais que estiveram na fundação da comunidade europeia continuam a ser válidos.

Talvez sejam isto que os britânicos precisam de recordar. David Cameron esteve perto de o conseguir, numa entrevista televisiva“He [Winston Churchill] didn’t quit on Europe. He didn’t quit on European democracy. He didn’t quit on European freedom. We want to fight for those things today. And you can’t fight if you’re not in the room.”

http://www.youtube.com/watch?v=rl7hFEhFav8&t=31m35s

Mas não é só isto.

If Europe were once united in the sharing of its common inheritance, there would be no limit to the happiness, to the prosperity and glory which its three or four hundred million people would enjoy. Yet it is from Europe that have sprung that series of frightful nationalistic quarrels, originated by the Teutonic nations, which we have seen even in this twentieth century and in our own lifetime, wreck the peace and mar the prospects of all mankind.

(…) Yet all the while there is a remedy which, if it were generally and spontaneously adopted, would as if by a miracle transform the whole scene, and would in a few years make all Europe, or the greater part of it, as free and as happy as Switzerland is today. What is this sovereign remedy? It is to re-create the European Family, or as much of it as we can, and provide it with a structure under which it can dwell in peace, in safety and in freedom.

We must build a kind of United States of Europe.

In this way only will hundreds of millions of toilers be able to regain the simple joys and hopes which make life worth living.

(…) Great Britain, the British Commonwealth of Nations, mighty America, and I trust Soviet Russia – for then indeed all would be well – must be the friends and sponsors of the new Europe and must champion its right to live and shine.