The Barn

The Barn © Filipa Moreno

Vale de Carvão não aparece facilmente nos mapas. Não está nos GPS mais avançados. Não se encontra perguntando. Só com uma longa lista de direcções rudimentares (“vira depois daquelas caixas de correio”, “logo a seguir a uma pequena subida”), conseguimos encontrar o The Barn, já a noite tinha caído por ali.

O Pete e a Teresa estavam à nossa espera, com uma garrafa de vinho e algumas uvas produzidas ali mesmo. Ali: numa localidade chamada Santo António das Areias, dentro do Parque Natural da Serra de São Mamede, onde o Vale de Carvão fica apenas a alguns passos a pé da vizinha Espanha. Ali se construiu esta cabana rústica (“charme rústico”, como se fosse uma categoria de pesquisa) de portas envidraçadas, rodeadas de videiras.

The Barn aquece só de olhar: é forrado a madeiras e tecidos quentes. Está recheado de pormenores atenciosos e, acredito, memórias vividas. Somos sempre acompanhados pelos badalos das ovelhas vizinhas e, ocasionalmente, o cair de um dióspiro maduro no chão rompe um pequeno-almoço soalheiro e tranquilo – esborracha-se no chão, para curiosidade do gato que nos visita, sempre com sede de mimo. Cozinhámos num verdadeiro forno a lenha, que o Pete concordou em acender para nós, apesar da temperatura de quase Verão, e enchemos o espaço daquele cheiro a casa.

Fomos deitando olho às informações de incêndios e, durante quatro dias, foram quase sempre 11 a arder no distrito. Tapámos os ouvidos a tudo o resto, ao barulho da cidade, às buzinas, às campainhas, às notificações. Ficámos ali, a ler ao sol, a percorrer algumas cordas de guitarra, a conversar e a rir (…) entre um e outro copo de vinho.

The Barn

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30 antes dos 30: Fight Club

Fight Club (1999)

No regresso à lista dos 30 antes dos 30, calhou, desta vez, Fight Club.

Para começo de conversa, é preciso dizer que o marketing deste filme anda errado desde o início. Portanto, desde 1999 que o Fight Club aparece com a carinha do Brad Pitt a fazer de porta de entrada. Até percebo o motivo, ou não fossem aqueles os anos áureos do rapaz. Mas este filme não é Brad Pitt (apesar de estar bem, sim). Este filme é Edward Norton.

Edward Norton tinha acabado de dar ao mundo American History X (1998). Aí, surge como um neonazi obstinado, que oscila entre a obrigação de cuidar da família e o vórtex que é o seu grupo de skinheads, até alcançar o arrependimento final. A suástica tatuada no peito é inesquecível, como também o é a cabeça rapada naquela personagem ajoelhada no chão, com um esgar estampado no rosto. Os braços estão musculados e o olhar é confiante.

Em Fight Club, Edward Norton aparece como um tipo emocionalmente desequilibrado. É franzino (perdeu cerca de 10 quilos para este papel) e não parece sequer conseguir enfrentar qualquer adversário com os seus braços magros, nos encontros do clube. Mas o que a personagem não tem de músculo, compensa em dimensão psicológica.

E é quando é revelada essa faceta da personagem de Edward Norton, o narrador, que a história prova que tem o poder de nos desarmar. Se já em 1999 isso seria admirável, hoje, Fight Club parece continuar a sustentar essa força. Deixou-me, pelo menos, boquiaberta, estática e a repetir uma série de “wtf” na  cabeça.

Além da originalidade da história, Fight Club tem o poder de brincar com a mente do espectador. Primeiro, de forma técnica. A figura de Tyler Durden (na pele de Brad Pitt) faz quatro aparições de milésimos de segundo, antes de surgir formalmente no filme, como se o narrador estive a criá-la e a projectá-la na sua realidade. Os mais atentos darão pelo truque, até porque já se conhece bem aquele mito (realidade?) dos frames mostrando de Coca-Colas intrometidos em filmes banais, para puxar à sede dos espectadores de cinema.

Intromissão menos óbvia é a de um aviso que a internet relata. Diz-se que há um frame com uma mensagem escondida do próprio Tyler Durden, que interpela directamente o espectador. “Don’t you have other things to do?”, pergunta ele. “Quit your job. Start a fight. Prove you’re alive. If you don’t claim your humanity you will become a statistic. You have been warned…”

O aviso passa despercebido mas a verdade é que a mensagem do filme fica a amargar na boca, durante uns tempos. Estamos mesmo a tirar o máximo disto? “Prove you’re alive.”

Menos despercebida é a missão que Tyle Durden (Brad Pitt) assume, ao coleccionar desistentes que tenta recolocar no caminho certo. É o caso do empregado da loja de conveniência, que Tyler persuade a retomar os estudos de Biologia ao encostar-lhe uma arma à cabeça. O estilo é persuasivo e violento mas a pergunta impõe-se: será esta personagem quase repulsiva, afinal, bem intencionada?

Arrumado o excelente desempenho dos actores (vale a pena dizer que Meat Loaf e Jared Leto também estão no elenco) e a originalidade da história, falta dar uma palavra à realização e à imagem. Luzes baixas, cenas filmadas sobretudo à noite, iluminação fraca. O sangue tem cor e textura verosímeis. As cenas são apanhadas de pontos de vista inovadores, como quando Edward Norton recebe a chamada de Brad Pitt, sendo filmado do lado de fora da cabine telefónica. Dizia-se que David Fincher estava a criar um estilo. (Ainda falta ver Seven para confirmar ou não.)

Falta dizer que a história é da autoria de Chuck Palahniuk. E que história incrível.

Fight Club (1999). David Fincher

Napoli, ti voglio bene

Campi Flegrei. No sentido literal, uma terra em chamas. Ali perto, Nápoles (a cidade) é mais ponto de passagem para a costa e as ilhas do que destino final de tantos e tantos visitantes.

Foi o da viagem número dois. Uma cidade que é berço da pizza e pouco mais. Uma cidade que recebe e mastiga os turistas porque, afinal, também o faz com os locais. A eles, endurece-lhes a pele. Se lhes descobrem umas ruínas romanas nas bases das casas, não aceitam desertar.

A nós, quase nos repele – irremediavelmente, se decidirmos acordar noutro poiso na manhã seguinte. A Nápoles da pizza original (a da Sorbillo), dos cafés expresso tirados a ferver, dos Maradonas homenageados em cada esquina e dos presépios pintados à mão em centenas e centenas de peças.

A Nápoles dos pizzaiolos, das obras que parecem durar há anos, dos napolitanos franzinos mas enamorados.

A Nápoles da Spritz e dos homens que cantam a todo o momento, como se a vida napolitana custasse menos a viver por ser cantada.

A Nápoles dos altares, dos metros impossíveis de tomar e dos pedintes que se estendem pelas ruas, como há décadas já não se vê por cá.

A Nápoles do Vesúvio magistral, em constante pano de fundo. A Nápoles dos 414 degraus, de Sant’Elmo ao Bairro Espanhol. Essa Nápoles dos corajosos que correram, eles mesmos, com os nazis.

A Nápoles do manjericão plantado às portas de casa. A Nápoles dos limoncellos tragados em fins de tarde, em fins de praças cheias de gentes que não compreendem Nápoles.

A Nápoles dos vendedores de parmigiano, que encantam entre um tesoro e outro amore.

A Nápoles das saudades de quem tudo quer levar para partilhar em casa e a das saudades que deixa.

Napoli, you motherfucner*, és um osso duro de roer. Ma ti voglio bene.

“Todas as receitas existentes de risotto”

Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice

Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 – onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá. Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era “You Oughta Know”, da Alanis.

Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.

Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois — acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de “How I Met Your Mother”. Mais que no começo de “Up”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos — não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme — e em tantos vídeos, músicas e crônicas. Não falta nada.

Gregorio Duvivier sobre Clarice Falcão

La La Land: A vida não é como nos filmes

“La La Land” é o filme-sensação da temporada e o grande favorito aos Óscares.

Emma Stone e Ryan Gosling dão vida ao par romântico que protagoniza a história. O par romântico – aqui está o primeiro sinal de que “La La Land” não recupera só a tradição dos grandes musicais de Hollywood, como tem sido tão comentado. Mais do que isso, o que aqui se faz é recuperar a tradição dos grandes filmes de Hollywood.

Que não se pense só em “West Side Story” ou “Singing in the Rain”. É verdade que Ryan Gosling também se pendura de um candeeiro. (Mas, ó Gene Kelly, ele não se ri como tu.) É verdade que há uma canção, cujos acordes se vão repetindo ao longo da história, que as personagens identificam de imediato e o que espectador reconhece como sinal de um momento marcante. Da mesma forma que Rick vai pedindo a Sam que repita as notas de “As Time Goes By“, em “Casablanca”. (E até aqui o Seb’s é decalcado do Rick’s).

“La La Land” não se limita a copiar. Homenageia. Não repete o que Hollywood já fez durante décadas, nos tempos do bom cinema e das grandes estrelas; de quando o preto e branco desapareceu para deixar ver os vermelhos vivos dos batons das actrizes. Em vez de repetir, resgata do esquecimento da produção cinematográfica em série, de hoje, a capacidade de produzir uma história clássica, num formato clássico.

Não falta nada. Além da música e da dança, está lá a grande história de amor, de duas personagens que o acaso insiste em juntar. Está lá a admiração por aquela época de ouro do cinema, vivida nos bastidores onde são feitos os filmes, tal como em “Singing in the Rain”. Está o carisma dos protagonistas, como que a relembrar os nomes que ainda hoje celebramos, Hepburn (Audrey e Katharine), Davis, Hayworth, Gardner, Bergman. Bogart, Astaire, Kelly, Grant, até Sinatra. Está um rol de momentos de sapateado. Estão os cenários que desaparecem para focar uma só personagem. Está até o uso de uma palavra ridícula mas característica (Fred Astaire em “Funny Face”, com o clássico s’wonderful).

Há aqui tanta nostalgia, que imagino Woody Allen consumido pela sua incompreensão habitual, de quem anda, há anos, a tentar fazer filmes como os de antigamente.

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Mas (e porque nestes filmes há sempre um mas) “La La Land” acaba por falhar. Enche-nos de expectativas no mais ingénuo desejo de que tudo corra bem com aquela bonita história. Achamos que tudo acabará bem, porque foi com estes clássicos que aprendemos que, nos filmes, tudo é perfeito. Mas “La La Land” acaba a tornar-se aquilo de que tentou fugir: um filme moderno. E, como qualquer filme dos nossos dias, não resiste a deixar para trás a sua versão cor-de-rosa e a dar-nos um verdadeiro banho de realidade.

É que, afinal, a vida não é como nos filmes. Não acabamos a dançar com vestidos brilhantes numa coreografia olímpica. Não acabamos num freeze frame de um beijo rápido (que Hollywood não deixava que os beijos se prolongassem além dos três segundos, naquela altura). Até porque – francamente – quem é que sabe sapateado, hoje em dia?